Uma coisa que pode trazer fascínio ao espectador em um filme é a maneira como a direção confia nas imagens. A ideia de que apenas aquilo que vemos já nos basta pode ser mais atrativa do que um apelo vazio para uma verborragia sem visual. O cinema de Pasolini, anterior a este filme, apostava mais em uma certa força do discurso enquanto palavra. Em O Evangelho Segundo São Mateus (Pasolini, 1964), por exemplo, há confiança nos ensinamentos de Jesus como catalisadores de poder, em contraste com o ambiente pobre e precário em que eram transmitidos, como se sua palavra fosse uma “forte luz no mundo”. Já em Teorema, o caminho é outro: o do poder do discurso enquanto imagem e encenação. O filme se aproxima quase de um cinema mudo, onde muito é dito pelos enquadramentos e pelos olhares dos atores, em especial o de Terence Stamp, que carrega um enigma distante. Quase tudo soa como um grande mistério, oferecendo mais perguntas do que respostas.

A incorporação de elementos metafísicos característica recorrente do cinema de Pasolini – que se valem de referências religiosas – é instigante e amplia as interpretações sobre a situação da família burguesa. Ao mesmo tempo em que o sexo é uma libertação e um contato com um sentimento humano autêntico e intenso, suas consequências também podem ser vistas como punições, por serem vividas dentro de uma classe tão mesquinha e inútil. É como se as classes sociais deixassem gradativamente de serem apenas classes e se transformassem em uma condição genética, que vai se desintegrando de dentro para fora. A ideia de sagrado é apresentada de maneira ambígua. Mesmo já explorada mais explicitamente em O Evangelho Segundo São Mateus, aqui ela surge menos definida, mais insinuada.

Embora Pasolini fosse declaradamente ateu e se opusesse ao catolicismo e às crenças religiosas de forma explícita, sentia fascínio pela noção de sacralidade e pela figura de Cristo. Tal fascínio se dava de maneira particular, distorcida e completamente afastada de qualquer lógica clerical ou tradicional, que sempre lhe foi nula. Em Teorema, ainda mais do que em seus filmes anteriores, a sacralidade é mostrada de forma física, carnal e sexual. Não se trata mais da manutenção da ordem vigente, mas de sua subversão. É uma revolução que vem de cima para baixo, que nasce da insistência do homem moderno de se alienar diante da falta de autenticidade. Essa postura gerou reações contraditórias. A esquerda tachou o filme de reacionário, enquanto a direita criticou sua abordagem da sexualidade, levando-o até mesmo aos tribunais sob acusação de obscenidade. Ninguém parecia compreender claramente aonde Pasolini queria chegar.

Em termos de temática e viés, o filme é, ao mesmo tempo, claro e diverso. A simples premissa de um misterioso visitante – não se sabe se é humano, anjo ou demônio – que seduz uma família inteira, incluindo a empregada, e depois parte, deixando-os em crise, já coloca em contraste o mundo material e o espiritual. O próprio cineasta afirmou: “Teorema é um filme escandaloso, mas apenas no sentido ideológico”. A declaração faz sentido ao percebermos que o filme abraça uma diversidade de pensamentos que enriquecem a obra e lhe dão um caráter mais complexo.

O resultado é algo raro em filmes de viés político, sobretudo em Pasolini, que era tão feroz e crítico em suas ideias: a humanização do burguês. O filme não julga os personagens por seus aspectos individuais, mas mostra que a classe social a que pertencem é vazia, fútil e desnecessária. O contato com o visitante desperta neles uma consciência que se manifesta como uma humanidade latente, mas também como uma crise tortuosa e sem fim. Estariam vivendo um castigo, uma libertação ou uma salvação? O mistério permanece na linguagem da obra.

Além de propor uma narrativa sobre relações de classe e poder, Teorema lança uma reflexão sobre o sentido da vida. Será que a futilidade e a incerteza quanto ao lugar no mundo afetam apenas os burgueses? Toda riqueza e status elevado conseguem dar conta do desejo? Conforme a sociedade se afundava no consumismo, alvo constante das críticas de Pasolini, essa futilidade se espalhou também entre os trabalhadores, ainda que de modo distinto; tudo foi sendo consumido.

O filme apresenta, então, uma desestruturação das classes sociais por intervenção divina, apresentada sob a forma de recompensas. A empregada da família, por exemplo, vive um efeito totalmente distinto de seus patrões: ela estabelece uma ligação com a santidade. É a única figura que sente a visita do misterioso hóspede como um contato com o sagrado. Ela representa o homem comum, em contraste com a família burguesa, que, mesmo tocada pelo visitante, só enxerga sua experiência como destruição e crise. É como alguém que, após se isolar muito tempo em sua própria casa, retorna ao mundo exterior sem conseguir se readaptar, mergulhando em espirais de arrependimento e sofrimento. Tudo isso é apresentado de forma excepcional, em uma riqueza de conteúdo e forma que fazem de Teorema uma das obras mais complexas e instigantes do diretor.