Vinte anos depois do primeiro filme da trilogia original, o diretor George Lucas, impressionado com as novidades em efeitos especiais, decide que o momento chegou para colocar em prática uma ideia antiga de contar a história de origem de um dos maiores vilões da cultura pop: Darth Vader. Primeiro, ele experimentou com essas novas tecnologias lançando a trilogia original remasterizada nos cinemas e em vídeo, em 1997, e logo depois começou as gravações do primeiro filme da nova trilogia, que seria lançado em 1999 e comemora neste mês 25 anos de lançamento.
Eu estava lá nos cinemas, tanto para a trilogia remasterizada como para o novo filme, muito empolgada de ver novamente aquele universo que mal conhecia mas já amava tanto. A experiência foi simplesmente incrível, George Lucas mesmo sem dirigir nada por 20 anos ainda tinha o espírito de aventura heroica infanto-juvenil que cativou todo mundo em 1977. O que eu vi foi um filme muito divertido e engraçado, personagens queridos da trilogia original e mais várias novidades promissoras, como a rainha Amidala (Natalie Portman) e o Darth Maul (Ray Park). Hoje, depois de mais sete filmes e várias séries canônicas, live action e animadas, revisitar Ameaça Fantasma é uma viagem no tempo.
Em uma época que tudo o que a gente tinha de Star Wars no audiovisual era a trilogia original, Ewoks e um especial de natal, a ideia de mostrar o universo organizado, avançado, limpo e bonito, prestes a ser tomado por um império sádico, é brilhante. Saber que tudo vai dar errado em algum momento é no mínimo bem intrigante.
Este primeiro episódio é sobre como a corrupção, uma líder inexperiente e a iminência de uma guerra fizeram a ascensão do império ocorrer de maneira legalizada. A história de Darth Vader, ainda como Anakin Skywalker (Jake Lloyd), acontece no meio de um conflito político e, apesar de ser aqui bem pouco importante, já fica claro que aquele menino escravizado liberto vai sofrer por não ser bem acolhido pela seita Jedi, perder a mãe e uma figura paterna, tudo de uma vez. E, como aprendemos aqui com mestre Yoda, o sofrimento é o que leva para o lado negro da Força.
O outro jovem personagem que vemos é Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor). Sabemos que ele será morto pelo menino no futuro e esperamos ver como a amizade deles acontece antes de seguir caminhos diferentes. Mas aqui os dois pouco interagem ainda, sendo o vínculo entre eles o mestre em comum: Qui-Gon Jinn (Liam Neeson). Do lado malvado está o imperador Palpatine (Ian McDiarmid), que por enquanto é senador do planeta Naboo, o mesmo da rainha Amidala, a qual sabemos também que será a mãe de Luke e Leia, da trilogia original.
O caráter introdutório de Ameaça Fantasma é evidente. George Lucas está mais preocupado em apresentar os personagens novos, relembrar os personagens da antiga saga e brincar com efeitos especiais do que desenvolver bons diálogos, conflitos e emoções entre eles. Até certo ponto, é válido para criar curiosidade sobre o futuro e fazer fan service para acalmar os fãs, mas isso se esvazia quando já sabemos o que vai acontecer.
Apesar das limitações do diretor e da história, o resultado ainda é visualmente interessante. Os cenários e as naves unem uma estética contemporânea cromada com renascença, os figurinos tem uma inspiração asiática opulente. Jar Jar Binks (Ahmed Best) tem um design novo e é totalmente feito em CGI, uma novidade pra saga, e a cidade dos Gungans é um exemplo de bom uso dos efeitos visuais – o personagem, aliás, aparece por muito menos tempo do que eu me lembrava e é sim um bom alívio cômico para crianças, por seu jeito desengonçado. Além disso, o vilão Darth Maul, a personificação do diabo cristão, com o vermelho, chifres e presença ameaçadora, protagoniza uma das melhores lutas de toda a saga – que também conta com uma das melhores canções de John Williams: Duel of the Fates.
Ameaça Fantasma não diverte mais da mesma maneira que em 1999, por outro lado também não mereceu ser tão massacrado pela crítica por todos esses anos (muito menos o bullying feito com os atores de Jar Jar Binks e Anakin). Ainda é uma boa aventura infanto-juvenil, com momentos de tensão e personagens cativantes – aqui muito mais pelo carisma dos atores mesmo. George Lucas é muito melhor como criador do que roteirista e diretor, mas faz o suficiente para empolgar e criar curiosidade sobre os filmes que seguiram.