Entre o enorme sucesso comercial de dois álbuns de rock clássico: The River (1980) e Born in the USA (1984), Bruce Springsteen decide criar um álbum de folk acústico gravado de forma tosca em fita cassete dentro do próprio quarto, o Nebraska (1982). É sobre este momento peculiar da vida do artista que o filme Springsteen: Salve-me do Desconhecido desenvolve sua narrativa.

Baseado nos relatos descritos no livro Deliver Me from Nowhere: The Making of Bruce Springsteen’s Nebraska (2023) e com algumas partes tiradas da autobiografia do cantor, o longa acompanha todo o processo de criação do álbum em um retrato intimista que explora o estado mental em que o músico estava. Então, para além de uma cinebiografia tradicional, o filme tem como tema central a depressão.

Apoiado por uma fotografia que ressalta a frieza (e as paisagens bucólicas) de Nova Jersey, com cenas internas quase sempre à meia-luz, Jeremy Allen White se transforma em um Bruce Springsteen introspectivo, constantemente angustiado pela fama e com receio do futuro, isolado e atormentado por memórias da infância naquela região, em especial da relação com o pai. O ator consegue ir além de uma reprodução fidedigna do biografado para trazer uma verdade e uma humanidade para o personagem, especialmente nas cenas em que está sozinho pela casa com um semblante que a gente que luta com a saúde mental conhece bem.

O jeito que o filme lida com a questão da depressão é uma das partes mais interessantes da narrativa visto que demonstra os efeitos da doença de uma maneira sensível e realista. As imagens sempre de noite ou com céu nublado, ou na casa escura, ampla, mas sem muita decoração ajudam a  transparecer a solidão e a angústia do protagonista, bem como a preocupação de quem está em volta e não consegue ajudar. Isso é muito bem costurado com o processo de composição do álbum e o estado mental do artista.

Esses bastidores, aliás, são ressaltados na narrativa de uma forma que não lembro de ter visto em outras cinebiografias musicais. O longa consegue nos aproximar da linha de raciocínio do músico, por meio das referências – a faixa Nebraska, por exemplo, foi inspirada por Terra de Ninguém (Malick, 1973) – da escrita, de gravações e de flashbacks da infância. A direção faz com que estes momentos naturalmente tediosos sejam aconchegantes, como se tivéssemos uma cadeira cativa na casa de Springsteen.

Por outro lado, os flashbacks da infância, todos em um preto e branco que destoa muito do contraste de luz e sombra do presente, beiram o cafona. Os traumas do cantor não são bem estabelecidos: mostra o perigo possível do pai alcoólatra e distante ser agressivo, mas não como isso progressivamente afetou a criança, para além de um episódio específico que nem muita consequência tem. Por isso as cenas cortam o ritmo do filme, ao mesmo tempo que não servem para entender mais da psique do Bruce Springsteen quanto a isso. As músicas sobre essa fase da vida dele já falam mais por elas mesmas.

Daí entra o outro ponto em que as canções do Nebraska não foram tão bem encaixadas na narrativa — a qual, inclusive, tem alguns momentos musicais marcantes com canções que não são do Bruce Springsteen. Não acho que seja estritamente necessário somente usar o catálogo do biografado mas, visto que está contando a história da composição de um álbum específico, acredito que faltou uma imersão maior nessas músicas. Por exemplo, uma característica marcante da gravação do álbum é que ele tem uma sonoridade “tosca”, com algumas dissonâncias e muito eco; porém ouvimos isso em trechos curtíssimos das músicas (salvo em uns dois momentos), enquanto toca toda a primeira estrofe de Born in the USA – canção muito famosa do álbum seguinte, criada neste mesmo período.

Springsteen: Salve-me do Desconhecido destaca-se, portanto, de outras cinebiografias musicais recentes pela escolha de retratar um trecho muito específico da vida de um artista e ter como enfoque o processo criativo e também a luta contra a depressão. No entanto, é uma pena que por vezes acaba se desviando muito do que estava funcionando narrativamente para tentar criar um drama forçado que já era subentendido.