Song Sung Blue: Um Sonho a Dois tem uma origem curiosa: ele é uma adaptação de um documentário de 2008 sobre a banda tributo a Neil Diamond chamada Lightning & Thunder, composta pelo casal Mike e Claire Sardina. É costume das cinebiografias serem inspiradas em livros ou mesmo em relatos diretos de conhecidos ou dos próprios biografados, mas acho que é a primeira vez que vejo a inspiração vinda de um documentário, uma interpretação já dentro do formato audiovisual. O filme original parece mais um episódio de reality show do canal E! Entertainment, pelo tom das entrevistas, até as imagens sensacionalistas sobre as dificuldades da família, e com alguns vídeos caseiros que beiram o degradante. Portanto é uma vantagem que, na ficção, os realizadores tenham optado por uma história mais próxima da sentimentalidade mamão-com-açúcar do típico filme do canal Hallmark.
O motivo dessa história ser interessante o suficiente para um estadunidense médio querer fazer uma superprodução sobre ela, com campanha para premiações e tudo o mais, é bem óbvio: os Sardina são uma representação perfeita do “sonho americano”. Ainda mais com um agravante de tragédia, o que cria o melodrama perfeito com narrativa de superação. Mike e Claire (Hugh Jackman e Kate Hudson) são dois cantores divorciados e com filhos, que compartilham da vontade de viver somente de arte e entreter as pessoas. É então que essa conexão estabelecida de início vai-se desenvolver em um casamento e, não menos importante, na criação da banda. A trama segue o ideal de que, se você tiver talento e trabalhar duro, vai conseguir sucesso; além da importância de prover e fazer tudo o que for preciso para manter a família unida.
Quando a tragédia acontece, o filme que era todo em azul e vermelho, luzes e glitter, torna-se acinzentado e revela seu tema verdadeiro: saúde mental. É interessante como a depressão é abordada, dando indícios sutis desde o começo do filme de que poderia ser uma questão no futuro, e quando, finalmente, a crise chega ela é muito verdadeira, assim como a reação tanto da pessoa doente quanto da família, bem como o peso que isso tem em todos. Nisso acredito que o filme foi feliz: em não apelar para momentos explosivos ou clichês, bem como em mostrar os diferentes pontos de vista dos membros da família. O problema é que, quando chega o momento de superação, volta-se à pieguice presente no começo do filme.
As canções de Neil Diamond são apenas um detalhe também. Com exceção da bela Play Me na cena quando os dois estão começando a se alinhar como músicos e se apaixonando; e em outro momento, quando a teimosia de Lightning e o respeito dele pelo cantor são mostrados ao escolher a transcendental Soolaimon para abrir o show, em vez dos maiores sucessos. No entanto, durante a maior parte do filme, as músicas servem somente como repertório da banda ou como fundo musical de montagem espertinha sobre a ascensão dos artistas (aqui tocando Sweet Caroline, a Evidências dos EUA).
Por isso, enquanto a história real seja inspiradora para alguns e tenha um diferencial interessante que justifica que ela seja contada, o filme escolhe a forma mais insossa possível. Apesar disso, o carisma e talento dos atores conseguiram inspirar mais empatia por eles do que o documentário, mesmo estando lá todos os acontecimentos descritos neste, com o estilo de cinebiografia Wikipédia – que já virou figurinha carimbada dessa época de prêmios.
Lightning & Thunder da vida real realmente conseguiram o que queriam: família, casa própria e viver da música, com o auge da carreira sendo banda de abertura de um show do Pearl Jam e algum sucesso no meio-oeste dos EUA. O porém é que a história deles chega aos cinemas em uma época turbulenta do país, em que esse ideal estadunidense está abalado, então é esquisito ver um filme que exalta isso de uma forma tão simplista e embalada por músicas que corroboram com esse sentimento de “americana”– até o trailer vende o filme como um romance musical alegre.
Por outro lado, até por ser pautado na realidade, existe uma discussão por trás de tudo sobre as dificuldades de uma família de classe média no país: pais com vários empregos, gravidez na adolescência e questões sobre o sistema de saúde, que quebram a fantasia e não são tratadas com gravidade, mas aparecem como dramalhão vazio. Assim, o filme fica em um meio-termo estranho, que não é muito efetivo nem como escapismo e nem como melodrama ou crítica social.