O infame e notório Código Hays foi a maneira que poderosos de Hollywood encontraram de estabelecer uma autocensura nos filmes e, assim, fugir de uma legislação propriamente dita que pudesse regulamentar, a contragosto, os limites da representação de alguns temas no audiovisual. Portanto, esse regulamento era um guia que as produções podiam escolher não seguir; porém, isso significava, muitas vezes, que o filme não seria exibido nos Estados Unidos. O Código, então, foi aderido pelos estúdios em 1934 e teve muita força na primeira década de vigência, sendo progressivamente desafiado a partir do fim da década de 1940 até a sua abolição e a adesão ao sistema de classificação indicativa em 1968, o qual está em vigor até hoje.
A censura imposta seguia uma moral cristã católica — o que era irônico, visto que a indústria era predominantemente judia, em um país majoritariamente protestante — e visava proibir qualquer coisa que saísse de uma dita “normalidade” e causasse “escândalo” na sociedade. Dessa forma, qualquer tipo de blasfêmia e insinuação sexual era motivo de censura, como: proferir xingamentos comuns, usar nomes religiosos em vão, dar beijos calorosos, mostrar nudez — mesmo que em silhueta ou no ato de dar à luz — e mencionar qualquer coisa que pudesse ser interpretada como perversão sexual (e aqui entram, subjetivamente, outras sexualidades que não a heterossexual). Também era proibido mostrar tráfico de drogas e falar mal do clero, de nações, de crenças ou de raças, o que, por um lado, era bom; mas foi usado também com a interpretação de que seria vedado criticar abertamente nazistas, mesmo após a Segunda Guerra Mundial. Quanto à raça, também era proibida a miscigenação e mostrar pessoas brancas como escravizadas.
O Código ainda previa o que não era completamente proibido, mas “malvisto”. E aqui a lista é mais extensa, abrangendo desde situações compreensíveis, como estupro, pedofilia e maltrato de crianças e animais; até outras banais, como mostrar um homem e uma mulher na mesma cama — inclusive, por isso, vários filmes que se seguiram mostram pessoas casadas dormindo em camas separadas.
Frederich March, Miriam Hopkins e Gary Cooper dividindo a mesma cama em Sócios do Amor
Desse modo, após a aplicação do código, houve uma diminuição significativa no uso de violência, especialmente em filmes policiais e de terror; e em filmes de comédia e romance a sedução e a sexualidade apareciam de forma muito implícita, mesmo quando somente nos diálogos, para passar pela censura. Com isso, o gracejo típico das comédias screwball, com a guerra entre os sexos, tornou-se quase uma maneira de demonstrar o interesse romântico evitando falar abertamente sobre isso. Portanto, o gênero floresceu justamente por conseguir contornar os tópicos mais espinhosos do código e ainda entregar romance e risadas para um público sedento por um escape da realidade.
Sócios do Amor é lançado na cúspide entre a liberdade e o acirramento da censura, em 1933, sendo barrado posteriormente de relançamentos até o fim da adesão ao código. Baseado em uma peça de Noël Coward encenada em 1932, o filme conta a história de dois amigos, Tom (Fredric March) e George (Gary Cooper), que conhecem uma moça, Gilda (Miriam Hopkins), em uma viagem de trem e ambos desenvolvem um relacionamento amoroso com ela, separadamente, a princípio.
O texto adaptado ameniza bastante as insinuações sexuais e corta qualquer menção à bissexualidade ou homossexualidade, que estão presentes no original, deixando tudo no subtexto. Aliás, fica aqui o adendo de que, embora o código Hays não fosse reforçado ainda, ele já havia sido publicado desde 1930 e afetou diretamente o presente longa. O filme, mesmo anulando o trisal até o final, ainda assim infringiu as determinações sobre falar de sexo (ainda que muito de passagem), não punir atitudes “subversivas” dos personagens (como adultério) e até, pasme, o fato de pessoas de gênero oposto deitarem na mesma cama (sem conotação sexual). Assim, mesmo criando uma narrativa bem pouco transgressora, no fim das contas, já foi o suficiente para o longa ser um dos impactados pela censura de Hollywood.
Sócios do Amor também não se distingue tanto de outras comédias da época: gravado em estúdio, majoritariamente em plano médio, com cenários simples e com o humor mais baseado em diálogos e frases de efeito do que no visual. A trama é muito coesa e direta, quase não há desvios do desenvolvimento do trio principal, e é sustentada principalmente pela excelente química entre os atores, sobretudo o carisma de Miriam Hopkins, que é a âncora do filme, por quem tudo passa.
Gilda é uma mulher independente, determinada, pragmática e livre. Ela é uma desenhista que trabalha com publicidade e ajuda os dois amantes também a ganharem dinheiro com as suas respectivas aptidões artísticas: Tom com a pintura e George com a escrita teatral. Assim, além da evolução emocional dos dois homens, o filme também aponta a ascensão social dos três, o que permitiria, mais tarde, que eles pudessem, pelo menos idealmente e financeiramente, viver juntos em outro país. Mas antes, Gilda aceita um casamento de fachada com um colega de trabalho, Max (Edward Everett Horton), como também uma segurança financeira e sentimental, sem saber que ela não precisava escolher um entre os rapazes — e o conflito para por aqui.
Embora não tenha a subversão da peça e seja mais contido, deixando muitos significados no ar para o espectador complementar, Sócios do Amor foi corajoso em apresentar uma configuração de relacionamento amoroso que não está alinhada ao conservadorismo da época — e que até hoje causa estranheza na sociedade monogâmica e heteronormativa em que vivemos. Além disso, o texto rápido e inteligente traz um humor ácido que resiste ao teste do tempo.