Muitos filmes de romance apostam em premissas espetaculares e fantasiosas para criar impedimentos que façam o casal principal ficar junto. De viagem no tempo a namorados zumbis, tudo é possível. Às vezes a fantasia não é tão mirabolante, basta inventar alguma desculpa aleatória para os dois se encontrarem, como uma aposta ridícula ou um programa de rádio. Em Só Por Uma Noite há uma mistura disso, abordando na premissa tanto algo completamente fora da realidade quanto imprevistos absurdos que fazem com que o casal se esbarre constantemente ao longo da noite do título.
O filme se passa em um futuro próximo no qual os EUA aprovaram uma lei que impede o sexo antes do casamento, exceto por uma noite — uma espécie de Uma Noite de Crime (DeMonaco, 2013) do sexo. Para isso, as pessoas têm um dispositivo no pulso, semelhante a uma tatuagem com desenhos escolhidos pelos cidadãos, que indica por meio da mudança da cor vermelha para verde a permissão dos atos libidinosos. Também é imprescindível que as pessoas solteiras usem camisinha, sob pena de prisão.
Na fatídica noite, Owen (Callum Turner) prepara um momento especial para pedir a namorada (Maya Hawke) em casamento. Porém, a moça propõe a abertura do relacionamento, pois quer usar a permissão para transar com outra pessoa (vale notar que união estável não é casamento nesse universo, portanto, sexo também não é permitido). Devastado, Owen aceita e vai em busca de outra pessoa também. Enquanto isso Allie (Monica Barbaro), solteira, é incentivada pelas amigas a usar um vestido revelador e arrumar um qualquer para aproveitar a noite, mas ela, muito romântica, acaba cedendo à pressão de forma relutante, com esperança de encontrar alguém que seja mais do que algo casual.
Um aspecto que não fica muito claro, no entanto, é a extensão do conceito de “sexo” neste universo. Allie tem uma colega de apartamento lésbica (Quintessa Swindell), que não está preocupada em aproveitar a liberdade pois já burla constantemente a prerrogativa. Assim, em um primeiro momento, a questão aparentemente seria só a penetração. Todavia, o fato de o dispositivo monitorar a dopamina específica liberada no ato dá a entender que a proibição é, na verdade, o orgasmo. Então, qual seria a regra?
Com isso, parece que a narrativa está preocupada apenas com um “mamãe e papai” básico mesmo, o que deixa tudo bastante puritano. Essa característica é curiosa quando se leva em conta que o conflito principal da narrativa é a procura de sexo. Até há um debate explorado na trama sobre a banalidade das relações humanas, só que tal discussão é deixada de lado no longa a não ser quando mostra a vontade de Allie de “fazer amor”.
Outro aspecto da narrativa que fica nebuloso refere-se aos atos que as pessoas fazem visando a burlar a lei para além de só transar e tentar não ser pego pela polícia. Parece algo fácil de se contornar, pois as regras são vagas. Por exemplo, não seria suficiente casar por períodos curtos de tempo? Ou, caso não seja possível esse casamento temporário, apenas viajar para fora ou para um local isolado no país?
Essas perspectivas são ignoradas pelo filme, em prol de focar nas situações inusitadas pelas quais os dois protagonistas vão passar para conseguir transar, no período de doze horas que constituem a tal noite. Isso gera vários momentos divertidos — como quando os dois lutam para conseguir o que parece ser a última camisinha a venda na cidade de Nova York — e que acabam aproximando o casal, este, por sua vez, bastante charmoso e carismático. A conexão entre eles é bem estabelecida também, representando ambos como vulneráveis um com o outro, abordando a narrativa diversos diálogos sobre seus desejos e seu passado, trechos que são ricos e amplificados pela química dos dois atores, fazendo com que o público torça por eles.
O problema é que parece que há dois filmes brigando pelo mesmo espaço. Um deles é uma comédia absurda e caótica sobre o desespero das pessoas para conseguir aproveitar a noite, como na tal cena da camisinha ou em outros momentos, como quando Owen é roubado no parque ou no flash mob do comercial de medicamento contra psoríase. O segundo é um romance sincero sobre a falta de conexão e profundidade das relações amorosas na era moderna ou como às vezes as expectativas que se tem sobre o outro não são reais.
No entanto, a narrativa fica no meio do caminho das duas possibilidades e em nenhuma a premissa de ficção científica se encaixa bem. Além disso, tanto a comédia quanto o romance dão suas derrapadas. Por exemplo, as piadas com o moleque tarado desviam muito do tom e as sobre a profissão de Allie são só desprovidas de humor mesmo. O romance funciona até despencar na conclusão, quando opta pelo clichê cansado do desencontro e a correria para recuperar horas perdidas e, no fim, em vez de finalmente cederem à mútua atração, ambos decidem que é melhor esperar.
Outro detalhe que incomoda um pouco e vale ser pontuado é a Allie, uma mulher belíssima, passar o filme inteiro com um vestido desconfortável — ao ponto de isso ser mencionado na própria trama duas vezes — parece reforçar a ideia de que a mulher para ser desejada tem que estar sexy, enquanto o homem está de jeans e camisa polo o filme todo. Inclusive, curiosamente esse reforço é feito pelas personagens femininas, em pleno 2026.
É uma pena que a premissa doida e interessante não seja explorada e que o longa seja tão conservador, ainda mais quando o ponto de partida é uma noite de gente desesperada para transar. Essa galera não aguentava um dia em bloquinho de carnaval por aqui.