É impossível falar desse documentário sem tomar partido contra Israel nesse genocídio absurdo que o povo palestino está sofrendo há tantos anos. O que mais impressiona hoje, além, é claro, da chacina ter se intensificado em Gaza principalmente, é que as imagens chegam aqui, do outro lado do oceano, ao vivo e mesmo assim nada é feito. Por um lado traz uma sensação de completa impotência – ora, mas se já é pouco o que conseguimos fazer, no conforto de casa, pelos que sofrem com isso no nosso próprio país, né? – e por outro fica fácil de entender porque o mais famoso genocídio do século XX aconteceu embaixo dos narizes europeus. Como pode um povo que sofreu perseguição por séculos fazer o mesmo com outro povo? E ainda usam como pretexto um direito divino milenar de terra prometida. Que Deus é esse?

Em Sem Chão, vemos o exército israelense destruindo o vilarejo de Masafer Yatta, na Cisjordânia, com a desculpa de que aquele povoado está em uma área de treinamento militar. Enquanto isso, Basel Adra nos conta que eles estão naquela região desde o século XIX e que desde criança já entendeu como funciona o apartheid em que os palestinos vivem . Ele fala por exemplo de quando construíram uma escola por lá, mas Israel não permitia e tentou a todo custo parar as obras, mas eles conseguiram terminar de forma que as mulheres e crianças trabalhavam de dia e os homens de noite. A resiliência deles naquela ocasião chamou atenção do mundo, inclusive tendo a visita de Tony Blair, e por isso a escola ficou de pé por anos e foi onde Basel estudou. O prédio não existe mais.

Quando as investidas militares se intensificaram, já nesta década, Basel Adra passou a filmar tudo – das demolições e protestos, até momentos de calmaria entre moradores de lá – com a intenção de mostrar para o mundo o que estava acontecendo no lugar (quem sabe o primeiro ministro britânico aparece novamente). Com isso, ele conhece e fica amigo de Yuval Abraham, um jornalista judeu israelense que também denuncia os abusos de seu país. As conversas entre eles são muito interessantes para mostrar a empolgação inicial de ambos para expor a situação ir se transformando gradualmente em uma desesperança avassaladora quando os esforços parecem não ter resultado. Além disso, apresenta sutilmente a diferença de Basel e Yuval, a medida em que o palestino convive dia e noite com o medo e a insegurança, enquanto o israelense transita livremente entre os lugares e pode dormir em paz.

Com o foco principal sendo a resiliência de uma comunidade que não tem outra terra para ir, o filme não recorre a cenas gráficas ou de sofrimento exacerbado, à exceção de um momento, e prefere, acertadamente, criar uma proximidade e empatia por aquelas pessoas. Ao mesmo tempo que é desolador ver as tentativas frustradas de salvar as casas, objetos, comidas – e até as galinhas de um galinheiro demolido – é admirável a luta de gente comum contra soldados armados para se ter o mínimo de dignidade. Muitos escolhem ir para cidades, sem nada (e assim Israel vai fechando o cerco), mas para aqueles que ficam não há alternativa se não lutar.

Esse documentário é um pedido de socorro. Conta uma história pessoal e de uma comunidade sem maiores firulas, uma crônica de um povo abandonado pelo ocidente que tenta como pode permanecer no local de seus antepassados. É angustiante pensar que não tem mais o que ser feito e Israel já venceu. Quem sabe Basel Adra e seus companheiros não conseguem operar um milagre daqui pra frente e que sirvam de inspiração para que pelo menos essas injustiças, em todos os lugares, sejam registradas e expostas.