Dentro de uma série tão densa em informações quanto Ruptura, é difícil definir qual seria seu tema principal. Contudo, uma fala da Srta. Huang — personagem introduzida nesta segunda temporada — no quinto episódio me fez voltar o olhar a um ponto específico da trama. A fala em questão se dá em um momento no qual os empregados estão pedindo à empresa uma espécie de “funeral” para um colega que irá ter sua versão interna desativada, quando Huang fala ao chefe do setor que não deveria deixar eles fazerem a cerimônia porque isso faria eles se sentirem como pessoas. Apesar de esse trecho ser bastante claro no tema da desumanização, seu grande mérito é dar enfoque ao aspecto que, para mim, faz a ligação entre toda a trama da segunda temporada de Ruptura: o terror gerado pela perda da humanidade.
Para quem não lembra ou não viu, Ruptura é uma série da Apple TV+ criada por Dan Erickson e produzida por Ben Stiller, iniciada em 2022 e que ganhou uma segunda temporada agora em 2025. Na trama, acompanhamos Mark (Adam Scott), um empregado da empresa Lumon — a qual criou um procedimento médico que possibilita a separação de memórias de uma pessoa em uma versão dentro do trabalho (chamados pelos personagens de “internos”) e uma fora do trabalho (“externos”) — após ele descobrir que a natureza de seu trabalho pode estar relacionada a uma grande conspiração, fato que o leva a tenta reunir seu setor, formado por ele, Dylan (Zach Cherry), Irving (John Turturro) e a recém contratada Helly (Britt Lower) para investigar. A produção ainda conta com Patricia Arquette no papel da chefe do andar Harmony Cobel, Tramell Tillman como o supervisor Sr. Milchick e Christopher Walken como o empregado de outro setor, Burt.
A primeira temporada toma grande parte do seu tempo apresentando esse rico universo e nos familiarizando aos personagens, bases que serão essenciais para a discussão da segunda temporada. Conhecemos seus internos e uma parte de seus externos e nos apegamos às características próprias de cada versão em diversas cenas que misturam terror, drama e uma comédia bastante afiada e usualmente satírica em relação às relações de trabalho modernas. Desde o início, frisa-se como os internos se diferenciam dos externos, e essa segunda parte leva tal perspectiva a um outro nível ao explorar alguns personagens que não tiveram tanto desenvolvimento na anterior e dar mais tempo de tela aos seus externos.

A partir daqui, precisarei entrar em spoilers.
Evidentemente, adentrar em uma discussão sobre a existência (ou não) de um indivíduo próprio nos internos é perda de tempo. Por mais que seja uma questão levantada pela série, não penso que será respondida completamente, visto que isso significaria abordar uma questão existencial bastante complexa sobre os atributos que distinguem os humanos dos animais e sobre a natureza de outros seres. Se assumimos que os internos são pessoas próprias, isso os coloca em igualdade aos externos; e como conciliar esses interesses no caso de, por exemplo, Helena Eagan e Helly R, em que duas personalidades opostas convivem? Caso se adentre em uma lógica de subordinação, na qual o interno tem uma individualidade, porém condicionada às vontades do externo — a qual parece ser a linha seguida pela Lumon — isso não seria uma espécie de escravidão moderna? Por fim, os considerar como meras ferramentas é ainda pior, por ignorar totalmente a possibilidade de sofrimento dos internos. Não há resposta fácil, e nem acho que a série busque isso, e ainda bem. O enfoque não é descobrir um paradigma ético, é definir um status social.
Historicamente, o trabalho é algo reservado àqueles menos que humanos. A reflexão acerca do que faz de cada ser humano uma pessoa capaz de ter dignidade sempre foi secundária às necessidades econômicas de um tempo específico, em virtude de a produção de bens e fornecimento de serviços sempre ser a fundação de qualquer construção sobre o pensamento ético — afinal, não há filosofia sem alimentação, moradia e segurança. Passamos por períodos em que era aceita a “morte civil”, ou seja, alguém deixar de ser uma pessoa para se tornar um escravo, e com isso perder todos os seus direitos; por teorias racistas que remetiam a passagens bíblicas para justificar a reserva dos trabalhos manuais a pessoas com determinadas cores de pele; e por teses de divisão social do trabalho que forçavam alguns grupos a trabalharem muito mais do que outros. Tudo isso para chegar na ideia de “trabalho livre e subordinado” que baseia o capitalismo contemporâneo.
Contudo, o trabalho livre nada mais é do que mais um status jurídico para justificar a reserva da produção a classes tidas como inferiores, como menos humanas. Inegável que, mesmo com a destruição neoliberal, tivemos inúmeros avanços que representam passos na direção de garantir dignidade à classe trabalhadora; mas tais avanços são apenas manifestações de um conservadorismo jurídico. Ou seja, a garantia de uma aparência de dignidade para prevenir movimentos revolucionários. É nessa cruel contradição entre a desumanização e a aparência de progresso que a segunda temporada de Ruptura começa.
Após o caos do fim da primeira temporada, a Lumon age como qualquer grande empresa faz quando questionada sobre o sofrimento de seus empregados: cria um programa para fingir que é progressista e empática. Porém, por trás desse trabalho publicitário nada mudou, e talvez até tenha piorado. Se antes os trabalhadores não podiam ir para outros setores, agora eles podem, só que cada passo está sendo vigiado; no mesmo sentido há o “Lumon está escutando”, slogan vendido como uma espécie de abertura democrática da empresa, mas que indica estar a corporação, na verdade, vigiando, como descobrimos ao longo dos episódios. Mais ao final, tudo isso toma outra dimensão ao descobrirmos que todos ali são meros instrumentos para o Cold Harbor e que pelo menos alguns deles (notavelmente a Gemma) serão descartados ao fim.
Nesse contexto, Ruptura é um curioso retrato de nossos tempos. Parafraseando Marc Ferro, um filme (ou, no caso, uma série) não pode ser abordado só como uma obra de arte, mas também como um produto, uma imagem-objeto, com significações não somente cinematográficas, a fim de buscar um método adequado para analisar historicamente uma obra. Como menciona o autor, “o saber e o modo de abordagem das diferentes ciências humanas não poderia bastar. É necessário aplicar esses métodos a cada substância do filme (imagens, imagens sonoras, imagens não sonorizadas), às relações entre os componentes dessas substâncias; analisar no filme principalmente a narrativa, o cenário, o texto, as relações do filme com o que não é o filme: o autor, a produção, o público, a crítica, o regime. Pode-se assim esperar compreender não somente a obra como também a realidade que representa”. Assim, para além das críticas mais visíveis sobre a organização moderna da força de trabalho, a série revela um medo ora latente, ora manifesto, da desumanização nos tempos atuais.

Se Star Trek canalizava o otimismo dos anos 60 e Exterminador do Futuro falava do temor da evolução tecnológica nos anos 80, Ruptura é menos uma distopia e mais uma representação do desespero constante em face de algo que já está acontecendo. Além de temer a evolução da tecnologia, hoje tememos que todo o sofrimento do capitalismo tardio se agrave, e temos que conviver com a angústia de não conseguirmos mudar isso. Por isso, o início da segunda temporada é tão interessante: tudo o que foi feito não deu resultado quase nenhum, vez que desafiar certas normas não destrói o status quo e a escolha coletiva de não pensar sobre ele parece inalterável. Conjuntamente ao horror de se tornar menos do que humano, há a frustração e a sensação de impotência de ver isso lentamente se tornando realidade.
Apesar de nada ser completamente imutável e haver possibilidades e ações que todos devemos fazer para aspirar a um rumo diferente, é inegável como o ritmo lento das mudanças e as angústias do cotidiano podem ser desesperadoras e desanimadoras. Há, para além da racionalidade de uma práxis visando alterar a base socioeconômica em prol de garantir dignidade, um sentimento de desesperança muito próprio de nosso tempo, que se situa após épocas de otimismo. É esse sentimento que a série canaliza.
Ruptura é um exagero e uma sátira, mas também é um terror sobre a contemporaneidade. A expansão da trama na segunda temporada tornou isso ainda mais claro e ainda mais assustador, especialmente quando materializa situações tão familiares ao nosso mundo, como a religiosidade corporativa, o marketing que esconde o duplo da degradação e a impunidade da destruição empresarial. Há muito sobre o que refletir sobre a trama, e mais ainda quando se olha a série como uma representação de um sentimento coletivo contemporâneo.