Às vezes, a gente esbarra em alguns filmes que nos fazem imaginar uma vida diferente: em que haja acesso a entretenimento que te faz sentir intensamente, te faz sentir vivo. Porque isso é RRR: Revolta, Rebelião, Revolução. Eu sou hoje uma pessoa mais feliz porque tive a oportunidade de assistir essa obra de arte.
Apesar de pouco conhecida no Brasil, a indústria indiana de cinema é a mais produtiva do mundo e RRR é um filme que já nasceu como sucesso por conseguir um encontro caríssimo e quase impossível, entre um diretor famosíssimo e duas das maiores celebridades do país. Aqui, vale ressaltar que o cinema da Índia opera num tipo de Star System, no qual os atores trabalham sempre nos mesmos estúdios (muitas vezes com uma tradição familiar) e são o principal chamariz para o filme, como são as franquias hoje no cinema dos EUA.
Mas o que é RRR? A sigla que oficialmente foi traduzida no Brasil como “Revolta, Rebelião, Revolução” era, na verdade, o título de trabalho que une as iniciais de Ram Charan e N. T. Rama Rao Jr, duas das maiores estrelas do cinema indiano na língua telugu – hoje a mais lucrativa do país -, e do diretor S.S. Rajamouli, que tinha no currículo simplesmente a maior bilheteria do país com o segundo Baahubali (2017).
Com todo esse “star power” logo de início, faltava uma narrativa que exaltasse os dois atores e as características do diretor, de um cinema épico e grandioso. O roteiro, escrito em cinco línguas diferentes, conta a história de dois revolucionários baseados levemente em Alluri Sitarama Raju e Komaram Bheem, que, na vida real, lutaram contra o domínio britânico na Índia do início do século XX.
No filme, Bheem é o líder de uma comunidade que vive na floresta e precisa resgatar uma menina sequestrada. Raju, por sua vez, é um revolucionário de uma comunidade devastada pelo domínio britânico que está infiltrado na polícia para conseguir armamento para a revolução. Os dois se conhecem quando juntos salvam um menino de uma explosão e constroem uma amizade (na verdade um bromance). Mas enquanto Bheem se finge de mulçumano para despistar a polícia, que o persegue, Raju é designado para prendê-lo e os dois não sabem a real intenção do outro. Desde as cenas que os introduzem, Bheem é associado à água e Raju é associado ao fogo – isso é bem destacado e persiste por todo o filme.
É difícil descrever o que é desenvolvido a partir dessa premissa, porque são sequências e sequências cada vez mais grandiosas e espetaculares de ação, drama e música. Rajamouli é muito inteligente em usar a linguagem clássica de Hollywood, mas propondo um melodrama característico em que tudo é muito intenso, todos os sentimentos são imensos: os heróis são superpoderosos e os vilões são o ápice da maldade. O diretor usa todos os recursos possíveis para ressaltar isso em tela – seja com slow motion bem colocado, mostrando a física, a força e o peso de determinada cena, ou então com efeitos especiais, óbvios e ou nem tanto, sempre aplicados para elevar a ação, como nas várias cenas que envolvem animais e motocicletas.
Porém, não somente de ação é constituído RRR: as músicas também são muito importantes para o avanço da história e uma diversão ou drama a mais. Os números de Naatu Naatu e Komuram Bheemudo são destaques. O primeiro com uma coreografia rápida que estabelece uma verdadeira disputa contra os ingleses e o segundo serve como uma prece e um discurso para a união de um povo oprimido.
Mas nem tudo são flores, RRR foi acusado de má representação dos dois revolucionários e de preconceito de castas e também contra mulçumanos. Para nós, que não conhecemos alguns signos da sociedade indiana, passa um pouco despercebido, no entanto o Bheem é tratado como um “bom selvagem” por Raju, que por ser de casta maior tem “mais educação” do que ele, ainda que os dois tenham o mesmo protagonismo. O filme ainda assim, pode ser uma ótima introdução ao cinema indiano como um todo, especialmente o cinema de ação de lá, ou, no mínimo, é um entretenimento garantido por três horas de duração. É um universo onde eu garanto que você vai gostar de adentrar.