Uma das particularidades de Rocketman em relação a outras cinebiografias recentes de grandes músicos é o fato de ter sido feita com o biografado ainda vivo. Geralmente, produzem-se filmes sobre grandes nomes da música que já faleceram, como no caso do novo filme de Michael Jackson; de Freddie Mercury no tenebroso Bohemian Rhapsody; além de produções sobre Whitney Houston, Amy Winehouse etc. A ideia de retratar grandes artistas já mortos atinge um fator patológico que vem alimentando o público de cinema nos últimos anos: a nostalgia.

Falar de ícones que não estão mais entre nós desperta, principalmente nos fãs, a sensação de saudade de supostos tempos áureos — tempos que, muitas vezes, aquela pessoa sequer viveu. Isso fomenta um espectador sedento por retornar a um passado ilusoriamente perfeito. Como resultado, o espectador recebe, na maioria das vezes, um compilado genérico dos “melhores momentos” da carreira do artista, pensado para agradar um público que vai ficar chateado se ver que seu ídolo era, na verdade, um desgraçado. Quando o retratado está morto, ainda existe o envolvimento de parentes e pessoas interessadas paralelamente em lucrar e em preservar a imagem do biografado, o que frequentemente bloqueia abordagens mais criativas e complexas sobre questões polêmicas, conflitos pessoais e outras nuances que poderiam resultar em projetos à altura de artistas que mereciam muito mais.

Todos esses fatores são uma exceção em relação a Elton John, que estava (e ainda está) vivo quando o filme foi produzido e ativo para participar ativamente da forma como sua vida seria retratada. Se Elton insistiu para que o longa destrinchasse seus conflitos internos, seu lado sombrio e suas fragilidades em contraste com a carreira gloriosa nos anos 1970 e 1980, foi porque todo aquele caos autodestrutivo já era uma página virada de sua história. Ele queria que sua trajetória fosse representada de maneira verdadeira e intensa, afinal, como o próprio cantor disse: “Não vivi uma vida PG-13”. O fato de ele não se importar com o exagero — ainda que verídico — em relação aos vícios e ao próprio comportamento demonstra o quanto havia superado aquela fase, mesmo sendo algo extremamente sensível de sua vida particular. Mas, ao contrário do que muitos pensam, esse lado humano apenas o engrandece, pois evidencia a força necessária para enfrentar seus próprios demônios. Afinal, ele ainda está de pé.

A escolha de transformar o filme em um musical é um acerto em cheio, não apenas por mergulhar na paranoia do protagonista e brincar com seu senso de realidade, mas também por permitir uma adaptação criativa do rico repertório musical do cantor dentro da narrativa como uma celebração a todo o trabalho de ambos de uma forma mais lúdica e instintiva. Isso dá ao longa uma identidade própria graças às escolhas precisas feitas ao longo da obra, as quais, mesmo não sendo uma novidade dentro do gênero — afinal, o filme ainda contém certos clichês de cinebiografias, o que não necessariamente é um demérito —, são muito bem influenciados pelo seu ritmo. Contar a história de uma vida em apenas duas horas é uma tarefa complicada, que exige escolhas certeiras para não comprometer a proposta. Felizmente, o filme é consciente, ousado e incorpora muito da extravagância estética do próprio Elton.

O Elton John interpretado por Taron Egerton é um dos grandes destaques da obra. Além de protagonista, sua performance não se limita à caricatura ou a um simples cover; conseguindo mostrar a pessoa dentro e fora dos holofotes, carregando os contrastes emocionais do personagem ao longo do filme. Ele já se apresenta falando de seus vícios; o auge de sua fama coincide com o ponto mais baixo de sua vida; ele é idolatrado por milhões de fãs, mas desprezado em seu convívio pessoal, com exceção de sua avó e de seu letrista e amigo Bernie Taupin. A persona artística que criou para si o consumia como um parasita, e o grande clímax triunfante da história não é um show grandioso em um estádio lotado, e sim o momento em que reconhece estar no fundo do poço e decide procurar ajuda ao se internar em uma clínica de reabilitação.

A tarefa de Taron Egerton não era apenas retratar a vida de Elton John, mas também cantá-la. Como ele é um ótimo cantor, suas performances musicais conseguem, ao mesmo tempo, remeter ao Elton verdadeiro e possuir uma característica única, moldada pelas emoções que cada canção transmite em certos momentos do filme, seja em forma de drama ou espetáculo.

Assim, Rocketman acaba se tornando uma das raras exceções entre filmes sobre grandes artistas: uma obra que os retrata de forma corajosa e humana. Ao mostrar tanto as qualidades quanto os defeitos, o filme permite enxergá-lo para além de uma imagem endeusada e unilateral. Vemos alguém que, ao se deixar consumir pelos próprios impulsos, tornou-se desagradável e autodestrutivo, mas que conseguiu dar a volta por cima. No fim, não existe um julgamento moral definitivo por parte do filme sobre tudo o que ele fez — vez que esse julgamento pertence ao próprio Elton, tanto àquele interpretado por Taron Egerton quanto ao homem real que incentivou uma obra honesta sobre si mesmo.