O diretor Roman Polanski disse, em entrevista, que a inspiração que ele e seu co-roteirista David Stone tiveram para fazer Repulsa ao Sexo veio por conta de uma conhecida em comum que aparentava ser dócil e inocente, mas que tinha profundos distúrbios psiquiátricos. Essa premissa é um ponto de partida bem interessante para se entender o filme, mesmo que ele não seja muito difícil, até porque algo fascinante da obra é como, visualmente, ela diz mais do que poderia com uma extensa cena de diálogo e, ao renunciar às palavras, tudo surge de forma abstrata e direta ao mesmo tempo, revelando a psique da personagem de maneira inteligente e compreensível.
Carol, protagonista do filme interpretada por Catherine Deneuve, traz muitos dos elementos citados pelo diretor na inspiração do filme, como a inocência que reprime seus sentimentos por conta de segredos obscuros. Até o momento, não se entende direito a razão dessa característica. Tudo é carregado de uma certa leveza cotidiana que só é perturbada pelo forte incômodo da personagem com a presença de homens, que retrai muito de seu comportamento, mostrando que existe um certo medo dessa companhia sem muita explicação. Depois, vamos percebendo que se trata de uma vítima de abuso.
Catherine Deneuve, na maior parte do filme, tem uma expressão como a de um zumbi, mostrando como é uma pessoa morta por dentro. É um rosto muito forte e amedrontado, que desperta curiosidade no meio de tanta trivialidade. Em momentos breves, os relances de seus traumas e medos já são suficientes para entendermos do que se trata. Os momentos de violência sexual valorizam ainda mais o desespero da protagonista, onde só seu rosto e suas mãos lutando para resistir são visíveis, ao contrário de todo o resto, que é coberto de sombras. Mas tudo muda quando a irmã mais velha sai de casa por um tempo, pois então a protagonista fica sozinha com seus demônios internos.
O apartamento vai se tornando um cenário onde a percepção do real se dissolve à medida que suas paranoias a consomem de forma claustrofóbica e inesperada, em decorrência de sua androfobia, como se o local se convertesse numa extensão da mente da personagem, onde ela própria é uma prisioneira que não quer escapar, pois teme o que possa perturbá-la lá fora. Ao fazer isso, ela vai constantemente revivendo essas memórias passadas dentro de seu próprio espaço, sem ter para onde ir.
Quando se é uma pessoa de mente instável, a própria companhia pode ser a pior coisa para se ter, pois abre espaços para que qualquer coisa possa te perturbar e para que você possa reagir sem nenhuma inibição. No caso da protagonista, a pior companhia para ela é a de homens interesseiros, pois nunca se sabe o que pode acontecer caso algo dê errado. Então Polanski, que, ironicamente, entende muito bem o horror e as sequelas que ficam em uma mulher vítima de violência sexual, traduz essa insegurança e neurose de forma empática e literal através desses vazios que se preenchem por meio de um onirismo pontual e de uma gradativa insanidade, provocada pelo medo de ser vítima daquilo de novo.