Não sou desses profetas do caos e não acho que o cinema ou a cultura estão em uma decadência generalizada. Penso que a contemporaneidade é mais complexa do que isso e é composta de um universo de evoluções, retrocessos e transformações naturais, com seu teor analisado caso a caso. Dentro disso, um dos elementos que, para mim, está em uma decadência vertiginosa é a liberdade para uma narrativa fílmica ser conduzida a partir do desprendimento, sem planejar cada segundo como instrumento para comunicação de uma mensagem ou ideia única — o que, vale dizer, não necessariamente se confunde com leveza. Tornou-se majoritária, no cinema recente, uma escola que reduz os filmes a panfletos desesperados para se fazerem compreensíveis a todos os públicos e para defenderem pontos; aspectos que retiram da arte a capacidade de explorar nuances, mistérios e abstrações, partes fundantes do fascínio que uma obra pode gerar. Nesse cenário, ainda que longe da perfeição, Regras do Amor na Cidade Grande me deixou feliz por caminhar na direção contrária dessa pobreza que marca os últimos anos.

Adaptado de uma das histórias do livro homônimo escrito por Sang Young Park, o longa acompanha Jae-hee (Kim Go-eun), uma jovem impulsiva e de espírito livre que, por sua vida fora dos padrões morais socialmente aceitos, sofre com um constante deslocamento; e Heung-soo (Noh Sang-hyun), um homem gay que esconde sua sexualidade por medo das consequências. A inadequação de ambos na faculdade acaba os aproximando e, com o tempo, eles decidem morar juntos para economizar com o aluguel e se ajudarem mutuamente. Assim, o filme conta a vida desses personagens ao longo dos anos seguintes.

Como já abordei em meu texto sobre Sem Arrependimento (Hee-il, 2006), a Coreia do Sul é um país bastante tradicionalista e pouco inclusivo. Apesar de não haver proibição para a população LGBTQIAP+, também há pouca proteção contra o preconceito e a violência, e uma “má vontade” generalizada em discutir uma mudança de paradigma nesse sentido. Esse contexto é fundamental para Regras do Amor na Cidade Grande, visto que a sexualidade de Heung-soo é provavelmente o fio condutor principal da trama. Sendo a narrativa uma espécie de slice of life (aquele tipo de enredo que aborda o cotidiano comum), os temas se entrelaçam e se alternam constantemente; mas todo o desenvolvimento de Heung-soo acaba atrelado à sua sexualidade, não por ser aquilo que resume o personagem, e sim por ser o principal impedimento para que ele busque seu lugar no mundo.

Regras do amor na cidade grande

Ao lado dele, é interessante como Jae-hee não é representada como um contraponto. Apesar de heterossexual, a sua personalidade se assemelha com a do amigo por outros meios e tabus, especialmente pelo seu pouco interesse em se moldar às expectativas externas de comportamento. Isso não significa, porém, que o filme romantize tal estilo de vida: a naturalidade da trama é acompanhada pelo peso das consequências, algo que atinge mais Jae-hee do que Heung-soo, muito pelo fato de ela ser mulher. Contudo, o enredo destaca sempre o apoio e a amizade entre os dois, em que há um equilíbrio pelo qual ela tenta libertá-lo do que impede a sua autoaceitação; e ele está presente como âncora para que a liberdade da garota não se transforme em autodestruição.

Essa montanha russa é trabalhada de forma sensível pela direção, que alterna entre uma leveza hilária (que eventualmente até beira a comédia física), e um drama bastante denso sobre o peso de não conseguir ser aquilo que o ambiente requer; passando, nesse caminho, por romances filmados com uma intimidade que enfatiza a paixão dos personagens. Nesse sentido, vale ressaltar o quão boas (mesmo que poucas) são as cenas de relacionamentos homossexuais, que parecem uma versão bem menos explícita mas igualmente bonita do próprio Sem Arrependimento e, até mesmo, da posterior (se considerado o lançamento coreano deste filme) série de sucesso Heated Rivalry (Tiernay, 2025-presente). Todavia, como falei, é um longa de oscilações, então essa beleza dos relacionamentos de Heung-soo é contrastada com a repressão social do desejo, compondo cenas afeitas a um drama trágico. Do outro lado, é curioso como Jae-hee segue uma linha diferente: tem pouca sorte no amor, e constantemente se envolve em relacionamentos abusivos ou é iludida para fins sexuais; algo que a direção comunica não colocando em tela seus atos sexuais, optando por um recorte que destaca a contraposição entre sua felicidade contagiante quando sozinha e a opressão dos relacionamentos. Enfatizam-se, assim, pontos distintos em relação a ambos, fazendo com que a dupla se entrelace para formar um todo não só temático como estilístico, nada higienizado e bastante interessado na humanidade de seus personagens, mesmo quando esta não é agradável.

Outro componente essencial para a totalidade de Regras do Amor na Cidade Grande é sua escolha de ambientação. A opção de posicionar a história em Seul entre meados de 2010 até 2023 não é por acaso. Em todo o mundo, foi um período de mudanças drásticas, e a capital coreana não ficou imune a isso, sendo a situação socioeconômica a fonte de diversos dos problemas enfrentados pelos personagens. A própria ideia de os jovens morarem juntos vem de um aumento no preço da moradia, decorrente da crescente especulação imobiliária que se intensificou a partir dos anos 1990, e da dificuldade da obtenção de crédito para o investimento em residências próprias. Ademais, as marcas do cenário de desigualdade e de precarização do trabalho que se ampliou a partir da crise asiática de 1997 se fazem presentes no dilema constante dos personagens entre expressar suas individualidades e se adequar em troca de empregos minimamente estáveis. Desse modo, a direção é bastante ativa em retratar essa ambientação, o que serve de pano de fundo permanente para as diversas microtramas da narrativa.

Mesmo tendo essa proposta que muitas vezes parece uma reunião de anedotas, há um desenvolvimento gradual dos personagens. Eles são colocados em situações que, progressivamente, iluminam o caminho que guia até as escolhas que colocam fim a esse período mostrado no filme. Nem sempre essas situações são interessantes, visto que algumas acabam se tornando panfletárias em prol de tornar óbvio que a obra não se coaduna com o preconceito contra a população queer — em oposição a justamente um dos pontos que elogiei no restante do longa —; e outras caem em uma galhofa não intencional que quebra momentos sérios. Entretanto, a maioria desses núcleos passageiros serve simultaneamente para desenvolver a autoaceitação da dupla principal por meio de situações mundanas, abrindo vários caminhos para fazer seus protagonistas se tornarem robustos em suas personalidades, e não apenas seguir uma linha estrita predeterminada.

Felizmente, o elenco principal é bastante competente para tanto. Kim Go-eun apresenta uma versatilidade impressionante, variando constantemente entre uma garota cativante e apaixonante, uma persona provocativa e combativa, e uma pessoa frágil, solitária e sem rumo. Por sua vez, Noh Sang-hyun consegue traduzir muito bem a mudança entre o Heung-soo da vida privada, que é animado e seguro, e do mundo público, quando parece sempre reprimido, envergonhado e pouco amigável. O ponto fraco, nesse campo, está nos coadjuvantes: parte deles é bastante talentosa, como Jang Hye-jin, que já brilhou em Parasita (Joon-ho, 2019); mas outra parcela não consegue adaptar sua atuação às situações, compondo personagens caricatos até em segmentos sóbrios, tal qual Ji-seok, interpretado por Oh Dong-min.

Assim, Regras do Amor na Cidade Grande é uma boa alternativa ao tédio repetitivo de filmes recentes que abordam temas sociais. Em vez de gritar ou resumir a obra a uma pauta, busca compor uma sensível história de amor, aceitação e amizade — ainda que, em momentos pontuais, se renda à explicitação verbal. Um longa divertido e poderoso, distante do higienismo de alguns k-dramas e filmes comerciais, que não tem medo de mostrar a sujeira de seu país e as imperfeições dos protagonistas; o qual, tenho certeza, seria um fenômeno em diversos meios caso fosse norte-americano.