A chegada e consolidação de um cinema com a estética, objetivos e questionamentos do Novo Cinema Queer no Sudeste Asiático ocorreu com um hiato temporal em relação à explosão do movimento nos Estados Unidos, ganhando força real como um cinema feito por e para a comunidade LGBTQIAP+ apenas na virada para os anos 2000. Esse novo movimento na região foi moldado pela tensão entre os fluxos transnacionais globais culturais e as tradições de cada nação, muitas delas bastante ligadas à religião e aos costumes tradicionais, como ocorre no confucionismo. Por isso, o desenvolvimento desse cinema tomou rumos bastante diferentes dependendo do país.
Exemplo disso é a comparação entre países de maioria islâmica com outros de origens diferentes. De um lado, nações como a Tailândia e as Filipinas são historicamente mais tolerantes do que a média asiática quanto à população queer, como ocorre com as obras de Apichatpong Weerasethakul. Por outro, locais de maioria islâmica, como Malásia e Indonésia, reprimem duramente a população LGBTQIAP+ e, por extensão, sua arte.
A China, por sua vez, vive uma situação mais complexa. Apesar de a homossexualidade ter sido crime na parte continental até 1997, obras como Adeus, Minha Concubina (Kaige, 1993) e O Outro Lado da Cidade Proibida (Yuan, 1996) romperam a censura e se tornaram bastante influentes. As circunstâncias eram mais favoráveis em Hong Kong, o que gerou o icônico Felizes Juntos (Kar-Wai, 1997); e em Taiwan, de onde surgiu Ang Lee, o qual, após ser conhecido por O Banquete de Casamento (1993), foi para os Estados Unidos dirigir talvez o longa LGBTQIAP+ mais conhecido da história do cinema: O Segredo de Brokeback Mountain, em 2005.
Contudo, a maioria está no meio, com a liberação da produção de arte queer, porém, restrita a uma bolha e ativamente ignorada pelo público em geral. É o caso do Japão, onde, mesmo sendo um dos países mais conservadores do mundo, a história do cinema LGBTQIAP+ coincide com a do cinema japonês em geral. Inclusive, produções com estéticas que se assemelham ao que posteriormente seria o Novo Cinema Queer foram realizadas anos antes da emergência da aids, como O Funeral das Rosas (Matsumoto, 1969).
Nesse contexto, a Coreia do Sul guarda peculiaridades, por ser um país que se situa no meio de uma forte tradição local e de influências externas, dada sua forte troca cultural secular com a China e com o Japão e, mais recentemente, com o Ocidente.

Sem Arrependimento (2006)
A tradição cultural coreana e o confucionismo
Contar a história da Coreia é, em parte, contar a história da China. A influência japonesa também é relevante, porém é posterior, tendo adentrado na Península Coreana em peso a partir do ano de 1910 com o Tratado de Anexação Japão-Coreia. Os povos que hoje constituem a China, por sua vez, estiveram presentes em toda a história coreana.
O próprio mito de criação do povo coreano coloca a descida dos céus de Hwanung — que posteriormente daria vida a Dangun, o antepassado de todos os coreanos — na montanha Baekdu, hoje na fronteira entre a Coreia do Norte e a China. No campo biológico, estudos apontam que os antepassados do povo da Coreia vieram do norte da China e dos povos mongóis, há cerca de 10.000 anos antes da era comum. Durante a dinastia Han (206 a.e.c.-220 e.c.) na China, uma séria de migração dos grupos étnicos han, ye e maek chegaram ao reino de Gojoseon, o primeiro reino de onde hoje é a Coreia, o que gerou uma troca cultural ainda maior. Ao longo dos anos seguintes a língua, a religião, a educação e a sabedoria coreanas se misturam profundamente aos conhecimentos chineses.
Nesse sentido, destaca-se o confucionismo, sabedoria derivada dos estudos do filósofo chinês Confúcio (551-479 a.e.c.) e dos “Cinco Clássicos”, que abrangem o Livro das Mutações, o de Canções, de História e o dos Ritos e os Anais de Primavera e Outono. O confucionismo baseava-se na premissa de que todo ser humano é fundamentalmente bom, ensinável e aperfeiçoável, desde que seguisse algumas virtudes básicas: o Ren (não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem a si), o Yi (justiça e retidão moral), o Li (respeito às boas maneiras no cotidiano), o Zhi (capacidade de distinguir o certo e o justo nos comportamentos alheios) e o Xin (confiança mútua). Ademais, fundamental ao confucionismo são os conceitos de Xiao (piedade filial), que significa o respeito aos pais, anciãos e ancestrais; e o de Zhong (lealdade), resumido na devoção e cuidado com a família, com a comunidade e com a própria consciência moral. Assim, é uma sabedoria que tem substrato na sacralidade do secular: as atividades e rotinas da vida comum e, especialmente, as relações humanas, não seriam profanas, mas sim a manifestação da natureza moral da humanidade, que possui sua âncora transcendente no Céu (Tiān) – um princípio absoluto e impessoal que rege a ordem cósmica.
Na China, o confucionismo é talvez a sabedoria mais influente da história. Menos preocupado com valores sobrenaturais e mais focado em corrigir o comportamento individual, é o fundamento dos rigorosos códigos de conduta do povo chinês, que organiza a sociedade de forma profundamente hierárquica. Em decorrência do Xiao e do Zhong, os deveres do indivíduo seguem uma ordem estrita de importância: a lealdade à família vem em primeiro lugar, seguida pelas obrigações para com o cônjuge, depois para com o governante e, por último, aos amigos. Do mesmo modo, o soberano teria legitimidade por sua profunda retidão moral e, por essa circunstância, devia ser obedecido fielmente, pois ele seria o líder da ordem moral de cooperação que rege a coletividade, que exerceria sua autoridade na confiança, e não na punição.
Na Coreia, o confucionismo é igualmente fundamental, tanto que a Dinastia Joseon chegou a se considerar a verdadeira herdeira confuciana em oposição à “corrupção” da dinastia chinesa Qing, que surgiu dos povos manchus e era vista como bárbara aos olhos coreanos. Isso se reflete no rígido código moral do país e, claro, na população LGBTQIAP+.
Apesar de os textos confucianos clássicos não proibirem a homossexualidade e análogos explicitamente, a forte relação dessa sabedoria com a centralidade da família e da linhagem levam a uma noção de que sexualidades não heterossexuais seriam um desvio à ordem natural e social. Na China, a homossexualidade foi crime entre 1979 e 1997 e, hoje, a posição estatal se baseia nos “Três nãos”: não aprovar, não desaprovar e não promover. Na Coreia, historicamente mais pacifista que seu vizinho, nunca houve proibição expressa, porém os “três nãos” sempre foram a diretriz básica.
Tais ideias são fortalecidas pelo cristianismo, que cresceu na Península Coreana principalmente a partir do Século XIX. Apesar de a religião ter sido um foco de resistência em diversos momentos da história do país, principalmente durante a anexação japonesa, as suas visões sobre a população LGBTQIAP+ nunca foram exatamente favoráveis. Hoje, a Coreia do Sul é de maioria sem religião, com o cristianismo prevalecendo entre os religiosos, e o budismo pouco atrás, seguido de minorias de cultos tradicionais. Porém, tanto os religiosos quanto os sem religião são bastante influenciados pelas tradições, seja confucianas, seja cristãs, budistas ou um amálgama de tudo isso.
Isso explica a razão pela qual o cinema queer demorou a existir na Coreia do Sul. Entretanto, com o intercâmbio cultural entre o país e outros mais abertos à liberdade sexual, tanto no oriente, como a Tailândia, quanto no ocidente, foi inevitável a chegada desses temas à arte coreana e, com isso, da tendência do Novo Cinema Queer.

Estátua de Confúcio (551 a.e.c. – 479 a.e.c.) na China
As três fases do cinema queer na Coreia do Sul
A divisão do cinema queer sul-coreano em fases históricas foi proposta pelos estudiosos Kim Pil-ho e C. Colin Singer no volume 14, número 1, da Revista Acta Koreana, em junho de 2011.
Segundo os autores, a história do cinema queer no país é dividida em três fases cronológicas distintas, classificadas de acordo com a forma como o conteúdo homossexual é apresentado na tela e a recepção que esses filmes tiveram pelas autoridades governamentais e pelo público.
A primeira é a Era Invisível (1945–1997), em que as fortes pressões sociais e a rígida censura impediram que os cineastas trouxessem temas homossexuais para o centro de suas narrativas. O conteúdo queer precisava ser inserido de forma extremamente discreta, tornando-se praticamente invisível aos olhos do grande público e sendo reconhecido apenas por espectadores já familiarizados com aqueles códigos. Obras pioneiras como Ascetic (Su-hyeong, 1976) e Broken Branches (Jae-ho, 1996) marcaram este período, cujo fim chegou em 1997, durante o primeiro Festival Internacional de Cinema Queer de Seul, quando a decisão do governo de banir a exibição do filme Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai, gerou intensos protestos públicos e debates que romperam a barreira do silêncio.
A segunda fase é Era da Camuflagem (1998–2004). A transição democrática e o estabelecimento de um governo mais liberal trouxeram o afrouxamento da censura e relaxaram os padrões de classificação dos filmes; no entanto, a indústria cinematográfica mainstream ainda hesitava em lidar abertamente com a homossexualidade por receio da reação de conservadores homofóbicos. A saída encontrada pelos realizadores foi camuflar seus personagens e relações queer, mascarando o conteúdo homossexual sob o disfarce de gêneros populares, como fantasias de terror e romance. Os exemplos mais célebres desta estratégia são Memento Mori (Tae-yong; Kyu-dong, 1999), no qual um romance sáfico é diluído em meio a um terror sobrenatural, e Bungee Jumping of Their Own (Dae-seung, 2001).
O terceiro período é a Era do Blockbuster (2005–presente), inaugurada pelo estrondoso sucesso de bilheteria de O Rei e o Palhaço (Joon-ik, 2005), obra que provou à indústria que a temática LGBTQIAP+ era comercialmente muito viável e lucrativa. Diante disso, o mercado mainstream passou a adotar a fórmula do “flower boy“, centralizando suas histórias em personagens gays ou de aparência considerada “afeminada”, com uma beleza extrema e delicada em blockbusters, como o filme Ataque aos Pin-Up Boys (Kwon, 2007), estrelado pelo grupo de k-pop Super Junior; a série Boys Over Flowers (Kamio, 2009), que consolidou o termo; Padaria Antique (Kyu-dong, 2008); e Flor Congelada (Ha, 2008).
Embora esses filmes tenham alcançado grande sucesso comercial (especialmente impulsionados pelo consumo crescente da cultura yaoi), a verdadeira expressão da sexualidade e das perspectivas da comunidade LGBTQIAP+ encontrou morada apenas no circuito do cinema independente. Nesse meio indie, destacam-se produções como Sem Arrependimento (2006), que subvertem os gêneros cinematográficos clássicos para confrontar abertamente a heteronormatividade e expressar o desejo queer de forma radical e explícita.

Memento Mori (1999)
Sem Arrependimento e a Nova Onda Queer na Coreia do Sul
Sem Arrependimento foi a estreia em longas-metragens do diretor Leesong Hee-il, um ativista assumidamente gay que já era conhecido no circuito independente por seus curtas de temática queer, como Sugar Hill (2000) e Good Romance (2001). Sem Arrependimento se tornou, assim, o primeiro longa-metragem sul-coreano a ser dirigido por um cineasta abertamente gay.
O longa nasceu, na verdade, como uma versão expandida de Good Romance (2001), inclusive mantendo o ator principal Lee Young-hoon no papel do protagonista Su-min. Produzido pelo também ativista Kim Jho Gwang-soo, o filme foi realizado com um orçamento minúsculo de apenas 100 milhões de won (pouco mais de 300 mil reais). O enredo também utilizou o contexto da forte recessão econômica que a Coreia do Sul passava desde 1997 como pano de fundo para a marginalização de seus personagens.
Apesar do elenco, diretor e orçamento estarem profundamente enraizados no cenário indie, os realizadores conseguiram fechar um acordo para que o filme tivesse lançamento nacional por uma grande distribuidora comercial. Eles utilizaram um plano de marketing inteligente voltado para as mulheres entusiastas da cultura yaoi (obras focadas no romance homoerótico entre homens). A tática funcionou perfeitamente e gerou uma base de fãs fervorosa que se autodenominava huhoepyein (algo como “Cabeças de Arrependimento”); fãs que fizeram campanhas orgânicas de boca a boca que foram essenciais para lotar as salas de cinema.
A obra, assim, foi a grande sensação do 11º Festival Internacional de Cinema de Pusan (PIFF). As sessões ficaram completamente esgotadas, com espectadores sentados nos degraus e espremidos ao longo das paredes da sala apenas para conseguirem assistir. Internacionalmente, a produção ganhou prestígio ao ser convidada para compor a mostra Panorama do 57º Festival de Cinema de Berlim.
Sem Arrependimento conta a história de Su-min, um jovem órfão que, ao completar 18 anos e sem condições de pagar a universidade, é obrigado a deixar o orfanato e se mudar para Seul. Na capital, ele trabalha em vários subempregos com o objetivo de juntar dinheiro para pagar aulas de informática e o ensino superior, momento em que conhece Chae-min, o herdeiro de uma família rica que sofre pressão da mãe para aceitar um casamento arranjado com uma mulher, que passa a perseguir Su-min romanticamente e de forma não correspondida. No entanto, após o protagonista ser demitido de um emprego em uma fábrica e ir trabalhar em um prostíbulo gay, seu caminho cruza de vez com o de Chae-min.
A obra subverte a clássica narrativa do “filme de hostess” sul-coreano — em que uma jovem pobre se prostitui na cidade grande acaba destruída pelo amante rico. Em vez de punir seus personagens por meio da degradação sexual, um tropo comum nesses longas, Sem Arrependimento mostra os dois amantes enfrentando as dificuldades juntos, afirmando plenamente sua sexualidade, algo que a câmera filma de forma crua e pouco sensual. O enfoque, assim, é na naturalidade e na marginalidade do relacionamento homossexual, e não no embelezamento ou na punição.

Nesse sentido, materializa vários princípios fundamentais do Novo Cinema Queer, nos termos desenvolvidos por Gregg Araki, Todd Haynes, Derek Jarman e outros. Uma das marcas do Novo Cinema Queer é o pastiche e a recriação de gêneros cinematográficos convencionais sob uma perspectiva queer, algo que em Sem Arrependimento aparece quando o filme toma de empréstimo a estrutura clássica do hostess film sul-coreano e a subverte através da troca de gênero sexual. Ao colocar o órfão gay Su-min como o garoto de programa envolvido com um herdeiro rico (Chae-min), a obra destrói o código moral punitivo e heterossexual tradicional desse gênero.
Ademais, não há a pretensão de buscar a aceitação do público através de representações comportadas, higienizadas ou de recorrer às caricaturas cômicas comuns em sitcoms ocidentais, apresentando o longa de Hee-il protagonistas complexos, imperfeitos e marginalizados. Ele rejeita os caminhos tradicionais de libertação queer ao centralizar sua trama no submundo da prostituição masculina e das casas de banho (Jjimjilbang), operando em uma zona social distante da moralidade aceitável.
Diferente das produções mainstream que pedem apenas a tolerância da sociedade suavizando o contato físico (como os supracitados filmes de flower boys), Sem Arrependimento exige reconhecimento e provoca reflexões através da representação do desejo de forma radical e sexualmente explícita. Desse modo, adota uma estratégia de naturalização, na qual os personagens gays vivenciam sua atração sem demonstrar sinais de dúvida, culpa ou vergonha sobre suas orientações sexuais.
No campo do questionamento sobre as estruturas sociais, algo que marca os movimentos queer no ocidente, o longa sul-coreano constantemente busca expor a desigualdade e as divisões de classe, assim como esses aspectos dentro da comunidade LGBTQIAP+. O embate ora raivoso, ora romântico, entre o desfavorecido e oprimido de todos os lados Su-min e Chae-min, rico e protegido por seu status financeiro, mas oprimido pelas expectativas da família; escancara as contradições sociais que permeiam o afeto e a sobrevivência em Seul.
Essas complexidades, porém, não retiram a beleza do filme, apenas ajudam ela a ser afirmada de uma maneira não convencional. Há, afinal, uma graciosidade ímpar em um relacionamento disfuncional, quando essa relação é constantemente agredida. Assim, um relacionamento como esse — entre dois homens de classes diferentes em uma sociedade imensamente conservadora — é belo em sua simples existência e sua afirmação não envergonhada. A experiência em si é uma resistência e uma oposição que não busca destruir nada, mas apenas construir novos significados de amor, e isso, por si só, é lindo. Nesse cenário, entra uma nova visão, popularizada no âmbito do Novo Cinema Queer, de uma substituição da punição ou da degradação da população queer por um certo otimismo por linhas tortas.
Em suma, a trajetória do Novo Cinema Queer na Coreia do Sul revela um movimento que precisou navegar por séculos de tradições confucianas e censuras sociais antes de encontrar sua própria voz. Se, por um lado, a abertura democrática e os blockbusters trouxeram visibilidade à temática LGBTQIAP+, frequentemente o fizeram sob o custo da higienização, comodificando essas identidades para o consumo em massa, deixando para o circuito independente a responsabilidade de levar adiante a real representação queer, algo que chega a seu ápice com Sem Arrependimento. Ao subverter gêneros cinematográficos clássicos, escancarar a luta de classes e rejeitar a punição moralista de seus protagonistas marginalizados, o longa prova que a resposta sul-coreana possui uma identidade singular, estabelecendo-se como um ato de resistência existencial, uma prova de que o amor e o desejo, quando vividos sem amarras nas margens de uma sociedade conservadora, são capazes de substituir a tragédia por um otimismo insurgente e simultaneamente incômodo e belo.
