É de conhecimento público como a Coreia do Sul é um país conservador, com raízes na rigidez das estruturas sociais e familiares do confucionismo e, posteriormente, interações dessas origens com o cristianismo. A nação nunca chegou a proibir desvios à heteronormatividade, mas opera sob a lógica do “se ninguém fala sobre uma situação, ela deixa de existir”. Desse modo, mesmo não proibindo, também não protege e não discute o tema, sendo um tabu enorme, inclusive no audiovisual.
Mesmo assim, nos anos 1990, a comunidade LGBTQIAP+ começou a lutar por espaços, o que flexibilizou a opinião pública sobre a população queer. Isso não quer dizer que essas pessoas passaram a ter uma vida fácil, contudo, a passos lentos, iniciativas artísticas desse público começaram a ser desenhadas e divulgadas. É nesse contexto que surge uma das primeiras vezes em que um filme abertamente queer atingia o circuito comercial coreano. Dirigido por Kim Tae-yong e Min Kyu-dong, esse longa se chama Yeogogoedam dubeonjjae iyagi (em tradução livre, Corredores Sussurrantes 2), ou Whispering Corridors 2: Memento Mori, ou pelo nome pelo qual se tornou conhecido aqui no ocidente: somente Memento Mori. À frente explicarei a razão pelos títulos diferentes, mas optarei pelo último, por ser o mais simples e pelo qual costuma ser identificado pelos espectadores ocidentais.
Talvez você esteja se perguntando “o que diabos é um corredor sussurrante?”, ou “nunca ouvi falar em Corredores Sussurrantes, por que estou lendo sobre o segundo?”. Para tanto, cabe uma contextualização rápida: há algum tempo, em outro texto, mencionei sobre a tendência do j-horror, e sobre como, no Japão, houve uma explosão de filmes de terror em home video nos anos 1990, muitas vezes em formato antológico ou em longas pertencentes a uma franquia, mas cujas histórias não se conectavam. Nesse período, um dos temas mais explorados era o terror juvenil ambientado parcial ou totalmente em escolas, como em Gakkō no kaidan — que deu origem a Ju-on: O Grito, inclusive. Nesse mesmo momento, algo parecido ocorreu na Coreia do Sul e fez emergir uma diversidade de obras, entre elas Yeogogoedam (o qual irei chamar, daqui para frente, pela tradução literal de seu nome, Corredores Sussurrantes), lançado em 1998 e cujo sucesso gerou mais cinco sequências até o momento.
As circunstâncias eram muito benéficas a essas produções. A ditadura militar coreana tinha acabado em 1987, dando início ao período da Sexta República, que perdura até os dias de hoje. A paranoia anticomunista havia aliviado, e a censura dava lugar a uma maior liberdade de expressão. Novas vivências começaram a quebrar a inflexível estrutura social, e temas inéditos ocuparam o debate público em um momento no qual o povo ainda decidia qual seria o papel da Coreia do Sul no mundo pós-Guerra Fria. Corredores Sussurrantes era um exemplo de um novo terror, um que não tinha mais como objeto aquele medo mais infantil do desconhecido, e sim um horror como forma de exorcizar um grito por décadas abafado de uma população que buscava dignidade e independência em uma nação que tanto sofreu por invasões estrangeiras e governos ditatoriais internos. Por isso, esse primeiro filme da franquia tinha como objeto uma das maiores angústias dos jovens do país: o autoritário e desumano sistema educacional. Esse novo fôlego tornou o longa um dos mais influentes do cinema coreano moderno, frequentemente citado como referência para vários cineastas, mesmo que nem sempre tenha o reconhecimento que merece.
Entretanto, não era um filme queer, pois isso só seria pauta de sua sequência, cuja autonomia o fez ser normalmente creditado apenas por seu subtítulo: Memento Mori. Apesar disso, o cenário de questionamento social no âmbito da juventude estabelecido pelo primeiro capítulo da franquia preparou todo o terreno para uma intersecção entre temas LGBTQIAP+ e as críticas sociais do terror da época, junção que baseia essa segunda parte.
Memento Mori, desse modo, como mencionei, conta uma história autocontida. A narrativa se desenvolve a partir da perspectiva de Soh Min-ah (Kim Min-sun), uma menina que, após achar um diário, descobre as minúcias do relacionamento de Yoo Shi-eun (Lee Young-jin) e Min Hyo-shin (Park Ye-jin), duas colegas de escola que se apaixonam e se veem ostracizadas e desprezadas por isso. Todavia, ela começa a notar que a ligação entre as duas guardava vários mistérios.
O enredo é pendular. Ora é um terror juvenil mais tradicional, ora uma tragédia romântica com contornos bastante inesperados. Gosto bastante de como o terror e o sobrenatural se vinculam a essa tragédia de repressão do desejo, mas, em termos narrativos, a trama perde força pela confusão com que é apresentada. Não quer dizer que Memento Mori seja difícil de entender, tampouco que o formato não linear utilizado pelos diretores prejudique a história. Porém, é incômodo quantas vezes o enfoque da narrativa muda e quantos núcleos são brevemente abordados, prejudicando a criação de um vínculo emocional concreto.
Isso faz falta justamente porque as personagens principais são interessantes. Min-ah serve de interlocutora para o público de uma série de acontecimentos intrigantes entre Shi-eun e Hyo-shin, que se veem em uma incerteza constante entre a vontade de manifestar seus sentimentos e o desespero por serem aceitas pela coletividade. Há, aqui, uma abordagem muito sensível sobre a constante metamorfose da adolescência que vai muito além da sexualidade. Todavia, nada é aprofundado para além da superfície, por conta da duração enxuta em conjunto com a trama fragmentada, que às vezes parece mais interessada em apresentar os “melhores momentos” daqueles personagens do que em fazer o espectador sentir empatia por eles.
Outro fator que faz a obra ser um pouco anêmica é como a fotografia e a iluminação não acompanham a tragédia da trama. O visual é padronizado por grande parte do longa, não se adaptando aos personagens nem aos acontecimentos, o que torna tudo cansativo, mesmo a obra tendo apenas 98 minutos. Isso não inclui, claro, a ótima cena final, mas é uma pena como a construção até ali é medíocre.

Quanto à questão queer — o principal ponto que colocou Memento Mori no debate público, por ser um dos principais marcos da abertura do cinema comercial aos temas LGBTQIAP+ — não há muito sendo abordado. Por um lado, a crítica à necessidade de repressão da homossexualidade é bem presente no subtexto, pois toda a relação entre Hyo-shin e Shi-eun e entre estas e as colegas, assim como a contradição entre o amor proibido e o desejo pela “normalidade” heterossexual nas interações de Hyo-shin com o Mr. Goh (Baek Jong-hak) — um professor delas com quem Hyo-shin guarda sentimentos —, é o que fundamenta o desenvolvimento e a conclusão do longa. Por outra perspectiva, a forma como os diretores encaixam os temas queer demonstra um certo distanciamento entre o público e o universo fílmico; afinal, trata-se de uma história sobrenatural, com fantasmas, telepatia e… sáficas. Tudo no campo da ficção.
Essa é uma maneira bastante confortável de se lidar com um relacionamento do tipo, por incluir ele em um universo fantasioso e não enfrentar as nuances diretamente. Não que todo filme LGBTQIAP+ precise lidar com vivências queer em termos documentais ou estritamente dramáticos. Há uma diversidade de lentes com as quais podemos analisar Memento Mori, e a leitura queer é apenas uma delas. No entanto, acho essa lente particularmente pertinente pelo fato de o relacionamento entre as meninas ser o pilar principal do desenvolvimento dos personagens e até mesmo da inclusão do terror na obra, que tem conexões muito claras com a repressão social.
Por isso, é decepcionante ver como, ao mesmo tempo em que tal temática é essencial para a composição de Memento Mori, ela é constantemente tratada como secundária, com o filme tratando suas personagens como vítimas azaradas do acaso, ou, pior, como uma mera “bobagem” entre adolescentes imaturos. Considerando o costume coreano de divisão de escolas em femininas e masculinas (como é o caso aqui), há uma normalização de uma proximidade homoafetiva (mas não homossexual) entre pessoas do mesmo sexo. Por isso, há uma noção no país de que uma conexão quase romântica entre os jovens é uma fase normal e uma forma de sobrevivência no ambiente competitivo escolar — afinal, sob tanta pressão, é mais fácil sobreviver em grupo — que se desfaz com o amadurecimento. Memento Mori nunca expressa isso, porém sua timidez na abordagem parece reforçar essa noção.
Ainda que o estigma do relacionamento sáfico esteja presente durante toda a obra, isso parece nunca sair do subtexto para atingir a encenação, ou aspectos do próprio texto além de alguns diálogos em momentos específicos. A impressão que fica é que, com algumas mínimas alterações, essa história poderia ter como vítimas um casal heterossexual, o que não combina com um enredo cujo vetor é a repressão social heteronormativa. Retirada a carga social e de identidade, a empatia fica prejudicada, porque o terror nem sempre é tão interessante, especialmente por não encontrar um ponto de conexão com os personagens, algo central para o mero medo de um susto ou de uma situação se tornar uma perturbação real. Falta, assim, algo que torne esse filme realmente marcante.
Desse modo, Memento Mori é ora eficaz, ora nem tanto. Apresenta uma narrativa curiosa, organizada de forma muito competente em sua não linearidade; no entanto, é limitado por um visual insosso e por uma ausência de hierarquia entre os núcleos que gasta muito tempo em personagens secundários e muito pouco nos núcleos principais. Muito da qualidade da produção vem das ótimas atrizes, com destaque à Min-ah de Kim Gyu-ri e à Hyo-shin de Park Ye-jin, funcionando a primeira como esse interlocutor que conecta o público à trama e o leva a desvendar os mistérios aos poucos, e a segunda como a representante de todas as contradições que a narrativa busca nesse conflito entre desejo e repressão, com a atriz representando muito bem sua procura desesperada por aceitação e expressão. É uma pena que a tensão desse conflito (entre desejo e repressão), após ser apresentada como substrato da narrativa, fique um pouco perdida em um terror mais convencional. Memento Mori não deixa de ser um bom filme, tampouco deve-se anular sua relevância naquele contexto — o que inclui a própria questão queer, visto que só o fato de uma obra como essa existir em 1999 já é uma grande conquista no país —, mas, às vezes, parece mais um rascunho do que uma obra acabada.