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O que me encanta no cinema da década de 1980 é exatamente aquilo que sobra em filmes como Quando Chega a Escuridão, primeira empreitada solo de Kathryn Bigelow na direção (seu primeiro longa, The Loveless, de 1981, foi co-dirigido por Monty Montgomery). Há uma falta de cinismo culminante em um faroeste romântico de vampiros que, em momento algum, debocha de si mesmo ou trata-se como paródia. Muito pelo contrário: apesar da abordagem mais caricata e expansiva, até pelo baixo orçamento, esse é um filme cheio de momentos sensíveis e belos dentro de sua própria diegese, de seu microcosmo particular.

Acompanhamos o jovem vaqueiro Caleb (Adrian Pasdar) quando este conhece uma atraente forasteira com um comportamento estranho. Ao tentar se aproximar da garota perto do amanhecer, ela foge pelas plantações, não sem antes mordê-lo no pescoço. Voltando para casa, Caleb sente sua pele queimar sob a luz do sol quando é abordado por vampiros foras da lei que usam uma van para se protegerem das queimaduras. Trata-se da “família” de Mae (Jenny Wright), sua pretendente de alguns minutos atrás, que, percebendo sua transformação, decide recrutá-lo como um igual. Ao se ver obrigado a matar civis para sobreviver de seu sangue, Caleb precisa decidir se fica com seus novos pares e sua amada ou se retorna para sua família, sofrendo as consequências que isso pode lhe reservar.

Sim, trata-se de um western dos tempos modernos a partir da premissa de um amor proibido entre dois adolescentes, cada um com sua realidade, ambas diametralmente distintas. E, a grosso modo, não deixa de ser um drama sobre o pertencimento da juventude, especialmente durante o processo de emancipação gradual da família para traçar seus próprios rumos, mesmo que de modos desleixados ou arriscados. Em suma, Quando Chega a Escuridão nada mais é do que um romance coming of age a partir da combinação de dois exercícios de gênero muito bem definidos.

Se o vampirismo gera esse erotismo entre o casal principal, especialmente nos momentos em que Mae ajuda o inexperiente Caleb dando seu próprio sangue de maneira sugestiva, também aumenta a periculosidade de entrar para um novo grupo rebelde, especialmente quando a dinâmica “familiar” gera conflitos constantes entre ele e seu “cunhado”, o violento Severen, em uma composição insana e memorável de Bill Paxton (seu personagem, não à toa, tornou-se o principal pôster do filme). Já o faroeste se dá pela ambientação do interior estadunidense e pelas pequenas empreitadas do grupo de sanguessugas, que vai de uma chacina em um bar de beira de estrada a uma troca de tiros com policiais em um pequeno motel no deserto. As próprias provações de lealdade ao grupo que Caleb enfrenta são típicas da dinâmica entre mentor e aprendiz desse tipo de obra.

Porém, o ouro desse grande filme de Bigelow está justamente em sua reta final, quando a diretora entende seus “vilões” de forma muito mais complexa do que outros diretores fariam se tomassem as rédeas dessa história. É aí também que surgem seus momentos mais sensíveis, que garantiriam à cineasta um lugar não apenas no panteão de grandes realizadores dos blockbusters, mas também de todo o cinema hollywoodiano. Ao deixar claro como o vampirismo é uma maldição de eternidade em agonia, também reconhece a natureza trágica de seus vampiros. Por mais que Severen seja, de fato, o grande vilão aqui, não podemos dizer o mesmo do pequeno Homer (Joshua John Miller) que, transformado ainda criança, deve enfrentar sua maturidade distante de qualquer relação mais íntima com outra pessoa. A própria Mae jamais parece confortável com sua natureza sanguinária e o casal veterano Jesse (Lance Henriksen) e Diamondback (Jenette Goldstein), mesmo que se divirtam ao já terem se acostumado com sua “nova” realidade, deixam transparecer genuínos traços de humanidade.

Em um desfecho melodramático, Bigelow bota a relação de Caleb com sua família original à prova diante do amor que sente por Mae e pelo estilo de vida mais livre da gangue de Jesse. No fim, a prova de amor vem quase como em um conto de fadas em que, através do sangue, Caleb livra Mae de sua maldição e, ao ver sua amada temer ser tocada pela luz do amanhecer, a abraça e conforta, em uma última linha extremamente significativa em sua simplicidade: “É apenas o Sol.” Bigelow então fecha Quando Chega a Escuridão, um filme de gênero tipicamente oitentista, como um melodrama clássico sobre o amadurecimento de um jovem diante de um amor proibido que pode finalmente ser consumado, sem que a escuridão venha reivindicar sua felicidade.