O Predador no filme original era uma fera alienígena caçadora de caçadores, uma ameaça invisível, letal e implacável, e assim seguiu por toda a franquia. Desta vez, porém, o protagonista é um alienígena Yautja, a espécie dos predadores e, ao invés do monstro sanguinário, temos um herói que precisa se provar como grande guerreiro perante o seu clã. Ao humanizar aqueles que, até então, eram grandes vilões, o diretor Dan Trachtenberg criou um problema para ele mesmo: como fazer com que o Predador ainda tenha peso como uma besta quase indestrutível em filmes seguintes? Ou a partir de agora eles vão ser sempre heróis?
A narrativa segue Dex (Dimitrius Schuster-Koloamatangi), um guerreiro Yautja menor do que a média e a quem o pai, e líder, julga ser fraco e não ser digno de integrar o clã. Para recuperar a moral, o jovem decide capturar, em sua primeira caçada, o lendário Kalisk: um monstro tão hostil que ninguém do clã se atreveu a caçá-lo. Dessa forma, Dex chega ao planeta Genna, cuja fauna e flora são tão letais quanto o bicho, e lá, por diversas circunstâncias, o guerreiro une-se a Thia (Elle Fanning), uma andróide sem as pernas (da Weyland-Yutani Corporation, empresa presente na franquia Alien) e a uma criaturinha fofa, que lembra um mico misturado com um tarsius, nomeada Bud.
A familiaridade da história do anti-herói ranzinza que tem o coração amolecido por novas amizades, e até o uso de robôs falastrões e bichos fofos, me lembrou demais da série The Mandalorian. Inclusive, se a Disney quiser fazer um universo megalomaníaco em que esses planetas fazem parte, de alguma forma, da lore de Star Wars, eu não vou achar de todo esquisito (a única diferença é não ser há muito tempo atrás, em uma galáxia distante). O filme, aliás, ainda explora algumas iconografias típicas da franquia de George Lucas, como a espada brilhante acesa no contraluz ou a mistura de armas, vestimentas, símbolos e outros elementos de guerreiros terrenos (como samurais e vikings) estilizados para ter uma cara extraterrestre.
Ser derivativo não é um demérito por si só — afinal, tem como criar algo novo a partir de algo muito familiar. E o longa parece seguir uma cartilha bem comum desse estilo de narrativa, com a diferença principal sendo o ponto de vista de uma espécie tratada antes, principalmente, como vilanesca. Sendo assim, ainda há criatividade na construção do mundo, especialmente do planeta hostil, e na elaboração das criaturas encontradas — o Kalisk mesmo tem uma mecânica bem legal, com efeitos de alto escalão feitos, inclusive, pela Weta e Light And Magic. O rosto do Dek também é impecável e consegue transmitir as emoções necessárias mesmo com aquela boca monstruosa e sem pálpebras e sobrancelhas.
No entanto, a estranheza de se ver “uma história Star Wars” com o Predador de herói ainda permanece, mesmo que o protagonista seja bem desenvolvido. Isso é agravado ainda quando é notável que a androide está lá para explicar a lore e ter alguém na história falando inglês — já que o herói, além de caladão, fala o idioma próprio de Yautja — e o bicho fofo é menos indefeso do que se achava inicialmente. É Mando, Grogu e IG-11.
No fim das contas, estaria mentindo se dissesse que não me agradou e me divertiu. Estou curiosa para ver como o diretor vai sair desse impasse sobre a essência fria e assassina dos predadores versus um protagonista cuja jornada é aprender sobre o poder da amizade.