Ryan Coogler já havia chamado bastante a atenção com seu ótimo longa de super-herói Pantera Negra, mesmo que suas decisões criativas estivessem minadas por conta do controle excessivo dos Estúdios Marvel sobre as realizações artísticas. Após seus três filmes pertencentes a grandes franquias (os dois longas do herói pantera e Creed), Coogler, pela primeira vez, realiza um longa originado completamente de suas ideias, sendo Pecadores sua obra mais ambiciosa até hoje. Não a caracterizo dessa forma pela sua magnitude de produção ou por uma suposta megalomania cinematográfica — algo que se tornou um sinônimo de qualidade para alguns nos últimos anos — e sim pela proposta de se assumir como um verdadeiro filme de gênero. Uma originalidade ardente que concede ao filme sua identidade como um terror fantasioso, não como os popularmente chamados de “terror elevado” que tomaram as ideias do gênero na última década; um terror que não tem medo de manifestar suas particularidades visuais e narrativas.
A primeira metade funciona quase como uma introdução de todo aquele pequeno universo interiorano do Mississipi, onde Coogler dedica grande parte de sua construção narrativa, buscando estabelecer o mundo e seus personagens. Esse arco de apresentação soa bastante fluido e dinâmico, muito em decorrência do jogo de câmera que enfatiza alguns planos-sequências, tornando as interações entre todos os residentes da pacata cidade orgânicas em relação à montagem. Em contrapartida, como descobrimos logo em sua primeira cena — antes da história retroceder — a movimentação gerada pela chegada dos gêmeos Fumaça e Fuligem, ambos interpretados maravilhosamente por Michael B. Jordan, irá culminar em algo macabro, mesmo que esse perigo não se revele até seu segundo ato, no qual a narrativa ganha ainda mais força.
Os elementos sobrenaturais não se restringem apenas ao segundo ato, pois desde sua abertura Coogler já introduz esse caráter místico que sua narrativa possuirá. A virada de chave da trama não se dá de maneira brusca, mas de uma crescente caótica que começa durante a festa do clube de blues dos gêmeos, onde Sammie (Miles Caton) esbanja uma aura mágica a partir de sua música, um detalhe recorrente em todo o longa. Essa união de temáticas entre o blues, o místico e o terror é magistralmente dosada durante todo o caso da segunda metade pois, como já disse, o diretor não tem medo de explorar seus temas a partir de uma abordagem galhofada de terror. Não falo isso de uma maneira pejorativa; muito pelo contrário, toda a sequência de sobrevivência contra os vampiros é tanto amedrontadora quanto empolgante, exibindo suas próprias características autorais e personalidade cinematográfica idealizada por Coogler.
Contudo, indo além de todos esses pontos, o detalhe mais genial em Pecadores é como o diretor trabalha tão bem suas temáticas sociais, culturais e históricas através de todo esse cenário caótico. O blues não serve só como trilha sonora ou temática, ele é a matriz de todos aqueles acontecimentos surreais, isso se exemplificando na belíssima cena de Sammie cantando no clube. Isso enquanto sua música, culturalmente marginalizada dentro dos Estados Unidos, se torna um dom sobrenatural que ultrapassa qualquer lógica, e Coogler consegue transmitir essa mítica, até quando esse pequeno detalhe atrai o mal dentro da história.
Pecadores é um filme que, além de não possuir medo de se assumir como um terror que beira a galhofa cinematográfica, vai além e consegue manter a relevância de suas temáticas sociais dentro dessa construção caótica. Uma obra com identidade e personalidade própria, onde Ryan Coogler prova sua capacidade como um diretor extremamente capaz de manter e desenvolver suas ideias próprias.