A França dos anos 1950 e 1960 era pouco afeita ao terror. Mesmo com George Méliès flertando com o gênero em curtas como O Solar do Diabo (1896), considerado o primeiro filme de horror da história, e Louis Feuillade adotando alguns dos seus signos nas minisséries Fantômas (1913-1914) e Os Vampiros (1915-1916), fato é que esse estilo viria a ser escasso nas décadas seguintes no campo dos longas-metragens no país. Contudo, a influência dos dois diretores mencionados era vívida na memória de alguns cineastas franceses que desejavam fornecer suas visões do gênero e explorar essa demanda pouco satisfeita. Isso culminou no projeto do produtor Jules Borkon e do diretor Georges Franju de adaptar o livro Os Olhos Sem Rosto, de Jean Redon, para um filme homônimo, lançado em 1960.
O longa acompanha Génessier (Pierre Brasseur), um famoso cirurgião que criou uma técnica inovadora de transplante de pele; e a sua filha Christiane (Édith Scob), a qual teve o rosto desfigurado por um acidente automobilístico. A culpa leva o médico a, com a ajuda da assistente Louise (Alida Valli), sequestrar jovens moças para retirar seus rostos e reconstruir a imagem da filha.
Nesse ambiente de escassez de terror que mencionei, um filme como Os Olhos Sem Rosto parece mais impactante do que de fato é. Isso, claro, não é um demérito (afinal, diz respeito apenas aos seus paradigmas para fins de categorização), mas é inegável como sua estética e narrativa se aproximam mais de um suspense dramático com toques de horror do que um horror propriamente dito, sendo o impacto majoritariamente decorrente da temática sombria e de cenas pontuais levemente assustadoras. No mais, a mise-en-scène trabalha uma mistura de noir, com sombras altamente contrastadas em relação à luz e elementos nelas ocultos, notavelmente o rosto desfigurado da filha, que é cercado de mistério; com um drama trágico calcado na culpa e no desejo de liberdade por parte da moça.

Isso também se reflete no próprio enredo, visto que o foco está muito mais no mistério sobre as consequências e os limites dos atos do médico do que no grotesco em si. A estrutura de uma pessoa precisando matar para recuperar a força vital de outrem se assemelha muito ao posterior Hellraiser (Barker, 1987), porém, enquanto este enfoca a repulsa, Os Olhos Sem Rosto se interessa mais pela ansiedade e pela melancolia. O campo do suspense é aquele em que a narrativa mais falha, por uma opção estranha de organização do cenário inicial da trama sob as seguintes premissas: (i) desde a primeira cena, Génessier é mostrado como um cirurgião plástico pioneiro em transplantes; (ii) a sua filha some após um acidente de carro que afetou a face dela; (iii) um corpo sem rosto é encontrado nos primeiros minutos, reconhecido como Christiane apenas pelo testemunho unilateral do protagonista; (iv) alguns dias depois, diversas moças convenientemente parecidas com Christiane começam a sumir. É evidente que o diretor não pretende esconder isso do espectador — afinal, a obra abre com Louise despachando um corpo —, no entanto, tudo parece bastante óbvio até mesmo para a investigação diegética, circunstância que torna o suspense forçado. Essa observação não é um anacronismo da minha parte, pois histórias fictícias de cientistas sem escrúpulos são bem mais antigas que o presente filme, e casos reais haviam ocorrido recentemente, como os experimentos médicos nazistas, os quais foram divulgados no Julgamento de Nuremberg nos anos 1940. Portanto, a efetividade do thriller acabou se perdendo parcialmente por sua falta de organicidade.
A obra acaba brilhando mais quando investe no drama e no terror. Há uma discussão bastante interessante sobre desejo e controle: Christiane não tinha uma vontade de beleza ou de poder, mas apenas uma busca por afeto. Todavia, esse sentimento depende da imagem; ninguém se afeiçoa completamente por abstrações, as ideias precisam ter corpo e, igualmente, as pessoas. O afeto ainda depende da liberdade, visto que não se ama aquilo que não se escolhe. Não é à toa que a menina é tão próxima dos cães que seu pai cria para experimentos, animais associados ao amor e companheirismo; e que, mais próximo do final, há um uso de aves, cujo poder de voar é o símbolo máximo de ser livre. Tudo isso — corpo, imagem, afeto, liberdade — foi retirado de Christiane. Ela se vê em um dilema entre a possibilidade de prosseguir com sua vida e o fato de os caminhos para tanto dependerem da morte de outros e das escolhas de seu pai, feitas para afogar a própria culpa pelo acidente. Esse contexto intensifica a esfera do horror, que é tímida, mas gera bons momentos envolvendo as distorções do corpo humano e a atmosfera sombria, que se une muito bem à melancolia da trama. Entretanto, ainda no campo do terror, o que mais chama a atenção nem é o grotesco em si, mas sim a estranheza. Aqui, o famoso termo “vale da estranheza” — segundo o qual formas muito parecidas, mas não idênticas, com humanos, causam uma sensação ímpar de desconforto — é pertinente, pois a máscara que a menina usa, unida à montagem que reiteradamente diminui o ritmo da narrativa para olhar para sua imagem, é a principal fonte de incômodo e de perturbação do longa.
Assim, apesar de provavelmente ser mais impactante no contexto geográfico e temporal em que foi lançado, e de falhar como suspense, Os Olhos Sem Rosto é um bom filme de drama/horror. A partir de uma trama inventiva de desejo, controle e liberdade e de composições de cenas tão boas quanto os melhores filmes noir. É uma obra desconfortável no melhor sentido da palavra, que se destaca por sua melancolia e sua intersecção singular entre uma tragédia clássica e um horror moderno.
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