Como conhecedor recente da franquia Os Estranhos, admito que me surpreendi positivamente com o longa original de 2008, de Bryan Bertino, e com a forma como ele abordava os joguinhos psicológicos que o trio invasor aplicava no casal principal. Até mesmo sua “sequência”, Caçada Noturna (Roberts, 2018), apresentou ideias visuais interessantes, mesmo que sob uma narrativa mais burocrática que apelava a clichês mais batidos do slasher oitentista e não ia muito além da zona de conforto desse balaio.
Eis que surge a ideia de um reboot/remake que não apenas buscaria recriar os eventos do primeiro filme, como também seria o começo de uma trilogia pré-planejada. Algo que eu questiono se irá acontecer de fato após assistir a Os Estranhos: Capítulo 1. Afinal, o diretor Renny Harlin, conhecido como o típico “tapa-buraco” de estúdios para franquias como Duro de Matar e A Hora do Pesadelo, oferece um resultado que nada mais é do que uma versão apática do longa de Bertino. E, infelizmente, será impossível continuar essa crítica sem fazer algumas comparações diretas; afinal, Harlin e sua falta de ideias novas acabam pedindo essa abordagem.
Se no filme de 2008, entrávamos na relação conturbada de um casal que tentava se reconciliar sem saber exatamente muito sobre eles (o que reforçava a ameaça aleatória que surgiria mais tarde), aqui somos apresentados a Maya (Madelaine Petsch) e Ryan (Froy Gutierrez) como o casal mais insosso do universo, com diálogos que parecem gerados por inteligência artificial, uma ingenuidade aborrecida e inúmeras outras características padronizadas desse tipo de franquia. Ou seja, a verossimilhança daqueles dois personagens vai para o espaço e isso afeta muito a ideia geral, já que não temos aqui a mesma rendição ao slasher oitentista que Caçada Noturna apresentava, que servia como distração para os personagens fracos daquele filme. Passamos mais de um terço do filme acompanhando as conversas dos protagonistas sem o menor interesse em suas figuras nem em nada que os rodeia. Até mesmo o fato de estarem em um bosque isolado próximo de uma cidadezinha estranha é tratado como algo corriqueiro pelo diretor – e pelos personagens. Isso, é claro, até o surgimento da ameaça do trio habitual.
O que mais enfraquece a construção de atmosfera é justamente sua total inexistência. Parece que Harlin copia os eventos do primeiro filme sem entender exatamente o que tornava eles tão assustadores para início de conversa e, consequentemente, cria incontáveis momentos de aparições-surpresa e jump scares como substitutos de uma ideia consistente de jogo de gato-e-rato. Se Bertino trabalhava muito os sons e a perspectiva dos personagens, em especial daquela interpretada por Liv Tyler, para nos colocar dentro da situação de desespero, Harlin é completamente burocrático em como aborda as preliminares do ataque e especialmente o ataque em si, parecendo mais um sétimo ou oitavo filme genérico de uma franquia slasher que já viu tempos melhores.
E o mais triste é saber que esse será o diretor dos outros dois capítulos, que já estão produzidos e com previsão para lançar ainda esse ano. Realmente, ao ler o aviso “CONTINUA” ao fim de Os Estranhos: Capítulo 1, você sai do cinema com algo a refletir. Afinal, temos aqui um desfecho também quase idêntico ao do primeiro filme e que particularmente não abre brecha alguma para qualquer tipo de sequência, tirando uma cena pós-créditos ridícula e completamente desnecessária para essa conclusão. Eu não sei se estou interessado para ver como vão conseguir justificar essa trilogia ou se só quero distância de uma nova franquia coordenada por um cineasta que parece tão avesso à ideia de “autor”. Até lá, posso afirmar que o mais novo Os Estranhos é um dos piores filmes do ano de 2024.