A primeira cena de Os Colonos estampa perfeitamente a ideia do filme, por meio de imagens estáticas de campos de pastos vastos e aparentemente infinitos, gado e mais gado caminhando de um lado para outro, esperando para serem convertidos em capital, e um grupo de trabalhadores demarcando a terra de seu senhor com uma cerca farpada, onde um deles perde seu braço em serviço, sendo imediatamente executado por seu capataz, um inglês em um uniforme vermelho do exército britânico. A execução de um homem incapacitado pelo trabalho pesado por um europeu simboliza fortemente o que Felipe Gálvez contará na narrativa, um retrato de um país americano construído pelas mãos ensanguentadas de homens inescrupulosos e violentos, a partir de uma abordagem que abraça o clássico do faroeste sem fugir de suas temáticas revisionistas.
Gálvez não rejeita as características clássicas dos longas hollywoodianos para contar uma história revisionista, falando dos mesmos temas que o cinema de faroeste passou a questionar com John Ford e outros: o mito da expansão do homem braço para o oeste, e como a figura do cowboy e sua simbologia masculina era desconstruída perante a realidade brutal desse processo expansionista. Dessa vez, porém, o diretor se utiliza dessa narrativa para narrar as atrocidades cometidas ao extremo sul do território americano, construído com base em manchas de sangue dos povos originários que ali estavam, em meio a um cenário que exalta suas cores e, consequentemente, exalta a violência trazida pelo progresso.
Dentro de seu filme, o diretor não nega suas referências em relação aos filmes de faroestes dos Estados Unidos, não apenas em seus temas, mas também em sua estética e sua decupagem que expandem os espaços e campos monótonos das terras inóspitas do sul do continente americano. Se os clássicos faroestes eram filmados sem cor, Os Colonos é tão vivo em cores que todo o cenário se torna algo lindo de se ver, principalmente nos takes que captam as cavalgadas longas e lentas perante a imensidão do mundo inabitado pelo homem branco, as pausas e conversas ao redor das fogueiras e a imagem do cowboy como um arquétipo de masculinidade e força de opressão aos selvagens. Gálvez se utiliza de várias dessas convenções clássicas, não para recriar uma atmosfera que se assemelha a essas narrativas, mas sim para conceder uma ressignificação a todos elas ao contar sua história, a qual tem um caráter extremamente violento e desumano, aspecto que demonstra como o diretor não rejeita o faroeste em si, todavia, busca mudar sua simbologia.
O genocídio indígena no filme, apesar de não ser graficamente explícito, é tratado de uma forma em que os homens brancos se transformam em máquinas de extermínio, focando sua câmera mais nas ações desumanas desses homens do que no assassinato sádico daqueles povos. Isso se exemplifica perfeitamente na cena do massacre do vilarejo, onde os indígenas são mostrados apenas por alguns segundos em meio a uma névoa pesada, que nos permite apenas observar enquanto os tiros são disparados e, mesmo que não seja claro nem visualmente violento, se sente cada corpo se esvaindo de vida enquanto as balas os acertam, pois a arma de fogo ali é o símbolo do poder e da opressão.
Essa dinâmica de opressão também é uma temática recorrente ao longo do filme, no qual seus personagens principais — um inglês sádico, um americano racista e um jovem caboclo — se envolvem em uma relação de ódio, poder e controle um sobre os outros. A cena após o massacre estabelece perfeitamente essa dinâmica, em que o jovem é forçado por seus comandantes brancos a violentar uma jovem moça indígena sobrevivente do ataque. Homens que se sentem fortes e imponentes em meio a sua disputa para manter sua masculinidade, arquétipo esse que se torna base das histórias do velho oeste, e que aqui se torna apenas a exemplificação de como essa cadeia de domínio nada mais é do que uma maneira de provar a toxicidade de suas virilidades. O encontro com o coronel britânico leva isso ao extremo perto da conclusão do longa, mostra como homens opressores perdem seu poder quando outro homem os oprimem, todos eles acreditando que estão em uma missão divina de purificação dos selvagens.
No fim, Gálvez não apenas dá espaço para a realidade dos genocídios extremos causados por esses homens de mãos vermelhas, como expõe a hipocrisia de seu governo como um órgão reparador de sua própria história, em que se concede às populações minoritárias seu espaço, mas apenas até onde eles permitem.