Olympia é um documentário lançado em 1938 e dirigido por Leni Riefenstahl dividido em duas partes: Festival das Nações e Festival da Beleza. Trata-se de um longa encomendado e financiado pelo regime nazista para documentar os Jogos Olímpicos de 1936, realizados na Alemanha, e para servir de peça de propaganda ideológica governamental.

A obra inicia com uma passagem da câmera por ruínas greco-romanas, com destaque à arquitetura e às estátuas da época, até finalizar em um atleta nu jogando um disco, tudo visto através de fumaça e de enquadramentos que glorificam a perfeição dos corpos e a nostalgia de um passado belo. Para além da homenagem às origens gregas das Olímpiadas, Riefenstahl busca a promoção de uma ideia fundamental às concepções nazistas: trazer uma versão idealizada (e falsa) da antiguidade clássica para valorizar uma “perfeição humana” de homens saudáveis, em oposição aos que eram considerados degenerados e fracos.

Assim, passa-se a Berlim e à abertura dos jogos. Entre saudações e imagens de Hitler, a imagem da pureza grega é passada aos alemães, que se viam como descendentes deles — ao menos, aqueles que se consideravam da “raça ariana” —, e os esportes retratam o auge desses homens fortes, altos e corajosos. Apesar da presença de Jesse Owens, atleta afro-americano, o eixo narrativo do documentário é a glorificação das conquistas arianas e a construção de uma imagem distorcida do regime.

Contudo, é curioso como uma peça de propaganda totalmente abjeta acabou por estabelecer todo um paradigma de filmagem dos esportes. Riefenstahl se utilizou de uma montagem que se deve muito a Sergei Eisenstein — diretor soviético que fez filmes como Greve (1925) e O Encouraçado Potemkin (1925) —, mesmo que utilizada para fins opostos; e criou uma série de novas formas de usar a câmera, como a de prender em balões para fazer gravações aéreas e um método inovador de filmar embaixo da água. Até os dias de hoje, todas as documentações de eventos esportivos têm um pouco de Olympia.

Ademais, o longa é uma ótima forma de se refletir sobre a história do cinema e suas primeiras décadas. O fato de a sétima arte ter surgido no fim do século XIX faz com que muitas de suas obras fundamentais tenham surgido não só sob a inspiração de uma diversidade de ideologias como a fim de fazer propaganda delas. Porém, elas não podem ser ignoradas, por terem definido os aspectos basilares dessa arte. Por isso, apesar de doloroso e nojento, é impossível ignorar filmes como O Nascimento de uma Nação (Griffith, 1915), que tem forte cunho supremacista branco, mas foi responsável por inaugurar diversos aspectos presentes em quase todos os longas-metragens lançados posteriormente; e nessa mesma categoria está Olympia.

Evidentemente, é necessária uma visão crítica. Entretanto, esquecer não deve ser uma opção, tampouco simplificar. O fato de Olympia ser asqueroso não tira sua importância, e não o faz merecedor de uma exclusão do mundo, mas também não significa que devemos buscar uma separação completa entre a obra e seu contexto a fim de encontrar uma pureza inexistente na arte. O primeiro passo para a reflexão é aceitar que um filme pode ser excelente e nojento ao mesmo tempo, e se concentrar mais em compreender criticamente suas características do que listar adjetivos.