A série Tiro Certo encontrou, desde o primeiro filme, uma maneira particularmente interessante de transformar o plano-sequência em mais do que um exercício de exibicionismo técnico. Em Tiro Certo (Nunn, 2021), a continuidade do plano fazia da própria carnificina uma experiência espacial e temporal, acompanhando os personagens sem estabelecer uma divisão tão rígida entre os lados do conflito e dando às mortes uma concretude física incomum, enquanto Mais Um Tiro Certo (Nunn, 2024) ampliava essa proposta para a arquitetura de um aeroporto, transformando o espaço em um enorme tabuleiro de gato e rato e tornando a câmera cada vez mais livre para abandonar Scott Adkins e acompanhar diferentes pontos de vista. Se o primeiro encontrava sua força na humanização da violência através da duração e da proximidade dos corpos, o segundo levava a técnica para uma complexidade espacial ainda maior, com uma montagem inexistente que precisava ser construída dentro da própria movimentação da câmera. O Último Tiro Certo chega, portanto, depois de dois filmes que pareciam descobrir progressivamente novas possibilidades para a mesma ideia, e talvez seja justamente por isso que sua redução de escala em praticamente todos os sentidos seja tão perceptível.
Enquanto o segundo filme escalava as proporções do primeiro, O Último Tiro Certo parece fazer o movimento contrário, diminuindo suas dimensões em praticamente todos os sentidos. O resultado soa mais como um exercício de variação do que de invenção; e isso fica evidente principalmente na locação, que se aproxima de uma Casa Branca genérica e não possui a mesma força do aeroporto de Mais Um Tiro Certo, que funcionava quase como um personagem vivo e oferecia uma geografia muito mais particular para a ação. Aqui, o espaço ainda é percorrido com competência, mas raramente parece produzir a ação na mesma medida.
Na primeira metade, o núcleo tático da equipe de resgate funciona melhor do que aquele centrado em Scott Adkins porque a presença simultânea de diferentes personagens devolve à câmera uma necessidade de organização espacial que remete às melhores soluções dos filmes anteriores. Em vez de acompanhar apenas um corpo atravessando o espaço, a câmera precisa decidir constantemente quem observar, de onde vem uma ameaça e para qual personagem a ação deve migrar, criando pequenas tensões a partir daquilo que permanece acontecendo fora do nosso campo de visão. É justamente nessa multiplicidade que o plano-sequência volta a parecer uma ferramenta narrativa, e não apenas a forma através da qual a ação é registrada. A câmera pode abandonar um personagem e descobrir outro dentro do mesmo fluxo, fazendo com que a missão pareça continuar independentemente de quem ocupa momentaneamente o centro da ação. O problema é que essa possibilidade aparece de maneira mais pontual do que estrutural, e o filme não consegue transformar essa dinâmica coletiva em uma complexidade espacial comparável àquela que Mais Um Tiro Certo encontrava dentro do aeroporto.
Não à toa, a melhor cena é justamente aquela em que todos morrem, e é uma pena que ela aconteça tão cedo. Existe ali uma dinâmica coletiva que permite ao filme explorar diferentes pontos de vista e fazer com que a ação continue mesmo quando o centro dela muda de personagem, algo que a narrativa repete ao longo da missão. Há uma liberdade interessante em como o filme abandona um personagem e acompanha outro, permitindo que um ator saia de cena e descanse enquanto o centro da ação permanece, criando uma espécie de continuidade do acontecimento independentemente de quem esteja ocupando o protagonismo naquele momento. É uma variação simples, mas que demonstra que ainda existe alguma coisa a ser explorada dentro do dispositivo, mesmo quando o filme não possui uma geografia tão rica quanto a do segundo.
Também não ajuda que a narrativa utilize pouco as tensões de urgência oferecidas pelo próprio roteiro. A possibilidade de uma bomba explodir deveria fornecer uma pressão constante sobre a ação, mas o longa parece não conseguir transformar esse mecanismo em peso dramático. Mais Um Tiro Certo utilizava justamente o countdown para fazer da continuidade temporal uma fonte de verossimilhança e urgência, e suas mortes em tempo real ganhavam um peso particular porque o espectador precisava permanecer dentro daquele espaço durante cada acontecimento. Aqui, há pouco dessa gravidade, enquanto a narrativa investe em um bromance entre herói e vilão que não consegue sustentar o mesmo interesse. O Último Tiro Certo ainda encontra algumas soluções interessantes na troca constante de pontos de vista, mas, depois de dois filmes que ampliaram progressivamente as possibilidades espaciais, temporais e dramáticas do plano-sequência, ele acaba soando como uma redução de uma fórmula que anteriormente ainda parecia estar sendo descoberta.
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