Atenção: o texto a seguir contém spoilers leves

Articular o terror, a comédia absurdista e o musical, tudo isso sem perder o tom infantil, em apenas dez episódios de dez minutos cada, enquanto se desenvolve uma narrativa envolvente de mistério, é uma tarefa para poucos. Nesse limiar entre as convenções desses gêneros, a tradição humorística do Cartoon Network, a leveza visando agradar às crianças e a sofisticação narrativa, situa-se O Segredo Além do Jardim.

Na minissérie, os irmãos Wirt (Elijah Wood) e Greg (Collin Dean) se perdem no Desconhecido, uma floresta estranha que parece estar alheia ao nosso mundo. A fim de voltar para casa, eles contam com a ajuda de um pássaro azul e de um lenhador, mas precisam também lidar com ameaças — dentre as quais se destaca a Fera, um monstro que assombra todos que vivem no local.

O Segredo Além do Jardim é uma obra que conquista aos poucos. No início, o estilo de animação, as piadas e a apresentação dos personagens remetem às tradições do Cartoon Network. Todavia, com o passar do tempo, fica evidente como, apesar de manter essas características vivas, o diretor Nate Cash busca construir algo muito mais mágico do que isso, utilizando o costume do espectador com as imagens amigáveis para levá-lo a uma jornada surreal de sonhos e pesadelos.

Em uma narrativa clássica — especialmente nas infantis —, é costumeira a existência de uma clareza espaço-temporal, de modo que o público tenha a noção de onde e de quando uma história se passa desde o início. Aqui, porém, essa convenção é relativizada: nunca fica realmente claro a natureza geográfica nem o funcionamento do tempo no Desconhecido. Além disso, o vínculo dele com a nossa concepção de “mundo real” — aqui apresentado como o Halloween em um bairro de classe média dos Estados Unidos — é abordado apenas no nono episódio. Portanto, ficamos quase no escuro durante as oito partes anteriores até esse momento.

o segredo além do jardim

Isso não quer dizer que o final explique tudo plenamente, tampouco que essa irracionalidade prejudique a obra em algo. Na verdade, o fantástico é a base para a construção desse mundo onírico em que a ordem e a desordem, o desejo e o medo, o bem e o mal, o sonho e o pesadelo ocupam o mesmo espaço — este paradoxalmente belo, incompreensível e ameaçador. Auxilia nessa desorientação uma incoerência intencional na trama: o Desconhecido parece não ter regras e cada situação em que os irmãos se envolvem aparenta formar um microcosmo próprio. Nesse sentido, o bizarro e divertido episódio do barco dos sapos é um excelente exemplo.

O musical é utilizado como um momento de respiro em cada microtrama. É uma forma, normalmente de Greg, de lidar com a insegurança daquele mundo e não só representa o convidativo lado lúdico da minissérie, como dá a ela uma suavidade que relativiza o mal do Desconhecido. Essa articulação tira o peso dos antagonistas, fazendo com que tudo pareça — repito — um sonho, em que as ameaças representam pouco perigo real. Há diversos momentos sombrios e situações concretas, mas eles não são levados como um drama ou como um suspense, e sim como uma parte incompreensível do igualmente incompreensível mundo ali colocado.

O Segredo Além do Jardim acabou por se tornar uma das minhas animações favoritas. Construído com partes que parecem não combinar, consegue ser divertido como um bom desenho animado infantil e interessante como as melhores histórias de fantasia. Uma minissérie única que merece sua reputação como uma das melhores do Cartoon Network.