A narrativa do filme constrói um ponto de partida bem direto, pois tudo o que acontece a partir daí é uma preparação para o que vem a seguir. Logo no primeiro minuto, ocorre o acidente de carro que vai mudar a vida da protagonista. Surpreende, de fato, esse imediatismo impactante, pois estimula a curiosidade de entender que tipo de consequência isso vai trazer. Mary Henry é a protagonista deste longa que carrega um aspecto um tanto incomum em filmes de terror, pelo menos na época: sua personalidade independente.
Desde que ela se muda para outra cidade para recomeçar a vida, ela sempre age como alguém que só quer ficar em paz, sem um traço de personalidade específico, e não cai fácil na persuasão de terceiros, especialmente do seu vizinho. Desde a primeira investida do rapaz, ela não demonstra qualquer interesse, apesar das insistências. Não há vontade de querer sair com ele a princípio mas, quando vai, ocorre por um medo de ficar sozinha, cercada por algo que não entende, o que vai tumultuando ainda mais essa interação. Apesar desse pavor óbvio, o filme expande as atitudes de Mary, como o seu lado mais proativo. Ela simplesmente se cansa de ficar com medo, e de não saber o que a está perseguindo, e busca enfrentar o perigo indo até o parque de diversões abandonado da cidade – que é o único lugar onde as pessoas dizem para não entrarem.
O resto do filme até o momento parece ignorar todos os acontecimentos iniciais para mostrar a personagem principal seguindo a vida dela de forma comum, e é nisso que reside o aspecto assombroso do filme. Já se fica tão acomodado com o cotidiano e com a vivência de Mary que o que é estranho e intimidador fica ainda mais medonho. Ainda mais quando surge de maneira imprevisível, o que é algo que lembra muito o filme Halloween, de John Carpenter, onde o suspense é a força motriz do filme, com o mal à espreita dos personagens, mas sem nunca atacá-los diretamente, só servindo para alimentar a aflição. E neste filme aqui, essa aflição se constrói através de recursos visuais e de montagem, bem práticos e diretos, pois, se tratando de um filme B de baixo orçamento, ele utiliza-se de um minimalismo estético que dá um charme singular para o longa, muito por conta da sua criatividade.
A melhor coisa dessa construção de suspense está na maneira como o filme faz a combinação entre realidade e sonho e instiga a pensar se o que Mary vê é sobrenatural ou se ela está delirando – ainda mais porque ela nos foi apresentada numa situação de quase-morte, o que indica se tratar de uma pessoa traumatizada. Em certos momentos, as visões nos tornam prisioneiros junto com ela, afinal também vemos o que só ela pode ver. Isso vai despertando mais curiosidade em entender qual é o interesse desses perigos vindos do parque – que, por sinal, é bem pouco decorado e bem aberto, o que o deixa ainda mais espaçoso e um terreno fértil para que o perigo surja de toda aquela precariedade – e qual a ligação desses seres com Mary, além do que tanto atrai esses fantasmas. É tudo construído em um ritmo bem consciente e na escala certa, onde o filme sabe onde chegar, diferente do espectador. Isso é uma boa oposição a filmes que constróem suas narrativas, mas de maneira perdida, atirando para todo lado. Já esse conhece seu objetivo e molda sua história ao sue favor e o público não saber disso é justamente o primor do suspense.