Começo falando sobre o valor emocional que esse filme me causa, pois O Lobisomem foi o meu primeiríssimo contato com filmes de terror, ainda na infância. Várias coisas a respeito disso me marcaram fortemente e mostram um pouco dessa inocência em relação ao consumo de cinema. Agora, reassistindo-o depois de vários anos, com outra cabeça, tive uma visão bem peculiar, porém positiva, sobre a obra.
Já começo com o maior ponto positivo do filme, que é a ambientação. Todo o trabalho de recriação da Inglaterra da era vitoriana é bastante imersivo e excelente, seja nos cenários, roupas ou costumes. Isso traz também um clima gótico e estiloso para a estética, que se constrói, pelo menos até certo ponto, numa abordagem de mistério. Tudo parece ser bastante frio e desolador, mostrando que algo de muito errado ronda aqueles arredores. Outro fator bastante fortalecido pela ambientação é a mitologia acerca da figura do lobisomem. Como a história se passa no século XIX, fala-se muito do caráter supersticioso da sociedade britânica da época, cuja cultura era cercada por lendas locais. Isso ajuda na construção da aura do lobisomem como uma criatura aterrorizante e temida de uma forma que vai além da racionalidade – recurso bem utilizado também em Um Lobisomem Americano em Londres (Landis, 1981), outro clássico dos filmes de lobisomem.
As cenas de brutalidade e violência têm um gore bem explícito e rápido – afinal, é um filme sobre um monstro selvagem e assassino – então, nisso, o filme não deixa tanto a desejar. O aspecto de terror tem construções de suspense bem básicas, feitas sem muito esforço, como se o filme estivesse apressado em chegar logo à violência, e, às vezes, apela para o uso de jumpscare de maneira um tanto preguiçosa e sem criatividade. Toda a sequência do acampamento dos ciganos é a melhor execução de um ataque de lobisomem feita no filme, colocando a imprevisibilidade como uma forma bem trabalhada de tensão, ao mostrar que se trata de uma criatura que pode surgir de qualquer canto, por ser noite de lua cheia – e combinando isso com a brutalidade do lobisomem enquanto um ser bestial. As cenas de transformação não parecem tão impactantes quanto aparentam ser, talvez pelo excesso de CGI e a recusa em combinar efeitos práticos, deixando-as um tanto artificiais em alguns momentos, embora visualmente bonitas em outros. O visual do lobisomem, por sua vez, é incrível e mais uma prova da contribuição positiva do trabalho de maquiagem de Rick Baker.
Outro aspecto que revela certas inconsistências no filme está relacionado ao ritmo. A primeira parte é mais lenta e abrangente, focando em localizar o espectador em vários pontos – às vezes de formas meio desinteressantes – seja ao falar do passado do protagonista e de sua família, das interações entre os personagens ou da familiarização com os ambientes. Então, após a primeira transformação de Lawrence (protagonista interpretado por Benicio Del Toro), as coisas passam a seguir de forma apressada, sem a calma necessária para abordar as situações. Isso não seria um problema por si só, já que vários filmes alternam o tom narrativo de algo mais denso para algo mais frenético, mas este não se preocupa em harmonizar essa mudança abrupta, fazendo com que ela pareça apenas deslocada. Os pontos de virada são jogados na trama de maneira desleixada e sem esforço algum.
Outra inconsistência do filme está nas cenas com os lobisomens. Como há dois, o filme aborda suas ações de formas diferentes. Ambos têm gore, brutalidade e violência, mas o lobisomem original aparece em cenas de terror, com uma postura mais animalesca. Já as cenas com o lobisomem Lawrence se aproximam mais de cenas de ação, aínda que com momentos de terror. Esse contraste tira parte do impacto que as cenas com Lawrence deveriam causar, considerando que ele é o personagem principal e é com ele que o espectador passa mais tempo.
Um grande ponto positivo (e negativo ao mesmo tempo) está no personagem Sir John Talbot (pai do protagonista, interpretado por Anthony Hopkins). Se O Silêncio dos Inocentes (Demme, 1991) nos ensinou algo, é que Hopkins domina com maestria papéis que transmitem uma aura de mistério e ameaça. Ele se destaca, para além do seu carisma, ao representar a frieza do personagem e sua reaproximação com o filho, mesmo com seu jeito apático de agir, deixando claro que não é alguém de confiança. O problema está em como a narrativa constrói o personagem: suas motivações são extremamente confusas e rasas, e ele seria bem mais desinteressante se não fosse o esforço de Hopkins com o material que lhe foi oferecido. Além disso, o ponto de virada do personagem é bastante previsível, já que as pistas e a mise-en-scène não se preocupam em trabalhar esse mistério de forma mais sutil ou indireta.
No geral, é um filme com vários pontos positivos e negativos, mas que ainda assim se destaca como um dos melhores filmes de lobisomem já feitos. É uma obra bastante injustiçada, que merecia ser bem mais reconhecida por suas qualidades – especialmente para quem gosta de um bom terror sobrenatural. E, acima de tudo, carrega uma importância significativa na minha cinefilia em relação ao cinema de horror, como sendo um filme que possui o seu forte valor, mas que teria sido ainda melhor se tivesse recebido um maior zelo em sua construção narrativa.