O Franco Atirador (1978) é um filme bem mais interessando em criar uma “micro” tragédia em cima da catástrofe que foi a guerra do Vietnã e que o capitalismo é. Digo isso porque ele parece criar uma situação bem mais localizada ao jogar os protagonistas para uma armadilha logo na primeira cena de “guerra”. Não existe um combate e Michael Cimino parece se importar com essa reação em cadeia de acontecimentos com e ao redor do personagem do Robert De Niro. Talvez seja um dos filmes mais marcantes do mundo nessa articulação de causa versus consequência; principalmente pela causa ser glorificada no começo do filme por cada um dos personagens, e no final não haver um pingo de nada que não seja melancolia.

Três amigos iludidos pelo sonho americano estão indo para a guerra do Vietnã lutar pelos seus países e matar comunistas. Quando acompanhamos o retorno pela visão do personagem Michael (Robert De Niro), me instigou e emocionou a justaposição de um momento de prazer, ilusão, amor e sonhos completamente irreais com algo do mais podre que a desumanidade poderia chegar; a destruição completa do sonho e do homem estadunidense.

Cimino faz com que as consequências traumáticas da guerra sejam muito marcadas em cada um dos personagens. Michael, o protagonista, perdeu muito da sua sensibilidade com as coisas e as pessoas, mas tem um instinto em descobrir onde estão seus outros dois amigos. Steven, além dos danos psicológicos, perdeu suas duas pernas e vive numa espécie de casa de cuidados, apesar de estar bem. Por último, Nicky, não voltou para casa da guerra e ninguém sabe onde ele está.

Toda a atmosfera gerada pelo uso ensurdecedor e muito calculado do som gera momentos precisamente brutais de uma maneira muito única; música ou mesmo motores, conversas que parecem propor uma encenação caótica, o som angustiante dos cliques do revólver, que cria uma relação quase hipnótica com o espectador. Os planos que geralmente englobam vários personagens e dão muito espaço para as ações do filme são contrastadas com momentos de introspecção.

Em certo ponto a jornada de Michael, que se traumatizou com a guerra e parece estar em uma espécie de transe, torna-se procurar obsessivamente por Nicky. Não se importa de desembolsar milhares de dólares para retornar ao Vietnã atrás do amigo. Descobrimos então que Nicky ficou alucinado e parece estar completamente hipnotizado pelo “jogo” de roleta-russa que traumatizou os três (e a mim também). O jogo se relaciona completamente com a maneira como Cimino retrata os vietnamitas; em tom minimalista, buscando criar a situação de desespero para desestabilizar e destruir a moral e o sonho americano.

Na guerra praticamente só acompanhamos um momento dos três protagonistas; não existe bem um combate e logo os três são jogados em um alçapão com outros americanos sequestrados por vietnamitas. Eles pegam um por um dos americanos, colocam em uma mesa com um revólver, colocam a bala no tambor, giram e fecham. Eles obrigam os sequestrados a atirar na própria cabeça, teoricamente, até o tiro sair. Essa sequência e a final que envolve uma disputa entre Michael e Nicky tem um dos usos de som mais dramaticamente envolventes que eu já vi. Cimino arrasta o tempo da cena para criar essa sensação agoniante e poderosa ao observarmos Michael percebendo que um dos seus melhores amigos perdeu qualquer traço de personalidade e lembrança do passado.

O som do gatilho é uma das coisas mais aterrorizantes que eu já vi em um filme, nunca senti tanto medo de uma arma na minha vida e isso é graças a maneira expositiva que Cimino tem com a organização do ambiente, os objetos e as ações da unidade estilística do filme.

O Franco Atirador é, para mim, um dos filmes que melhor criam essa tragédia mental, física e local da guerra. É realmente uma das encenações mais expressivas que já vi, fazia muito tempo que eu não chorava tanto.