O Estrangeiro, para aqueles que não estão familiarizados, é um romance literário do escritor francês Albert Camus, sendo uma das principais obras que abordam o existencialismo e o absurdismo que marcam o autor. O livro já havia sido adaptado para o cinema em 1967, nas mãos do grande diretor italiano Luchino Visconti, estrelado pelo ator Marcello Mastroianni; e em 2001, produzida pelo turco Zeki Demirkubuz. Até então, não havia outras adaptações ao cinema, até que em 2025 François Ozon realizou a primeira versão de fato francesa da obra, e que talvez seja seu melhor trabalho até hoje.
François Ozon é conhecido por dialogar com certas tradições do cinema europeu, especialmente com a mise-en-scène melodramática e a encenação teatral, além de enfocar a exploração da sexualidade alheia. O Estrangeiro (2025) abrange grande parte das influências artísticas do diretor, adotando uma estética que lembra muito a linguagem da Nouvelle Vague francesa, mas nunca de maneira pretensiosa ou meramente nostálgica.
O longa narra a trágica história de Meursault (Benjamin Voisin), um homem aparentemente apático que vive na Argélia colonial e cuja relação com o mundo parece marcada por uma indiferença radical. Em um dia qualquer, sua mãe falece em um abrigo isolado para idosos. Meursault não demonstra a reação socialmente esperada à morte de sua mãe em seu funeral, não chora nem expressa sofrimento convencional, o que o coloca em desacordo com as normas sociais que demandam determinadas performances emocionais.
A narrativa, então, se desenrola de maneira simples após o funeral. Meursault continua a levar uma vida comum e sem grandes emoções, mantendo um relacionamento com uma mulher chamada Marie e interagindo com pessoas de caráter moralmente duvidoso. Em um ponto crucial, ele realiza um assassinato sem praticamente nehuma motivação definida — um ato que parece ser mais consequência do calor, da luz solar e de um estado sensorial intenso do que de uma intenção racional.
A rotina sem emoções de Meursault é filmada de maneira direta e silenciosa. Na maior parte do filme, o personagem apenas abre a boca para falar quando lhe é requisitado, e sempre o faz de maneira muito breve. Dentro dessa abordagem, Ozon concede muito tempo nos prazeres mundanos de Meursault: ele mergulha na praia, faz amor com sua namorada Marie (Rebecca Marder) e conversa constantemente com seu vizinho Raymond (Pierre Lottin), um homem moralmente ambíguo que mantém uma amizade peculiar com o protagonista. Meursault não reage a nada disso com fortes emoções, e só vive dia após dia.
Ozon filma sua relação com Marie de uma maneira intimista, com cenas sexuais extensas entre os dois, que expressam a satisfação silenciosa de Meursault em relação a sua vida. É algo que se mantém pela maior parte do primeiro ato, quando o protagonista está mergulhando com Marie, quando almoça de forma descontraída com Raymond e até mesmo quando se envolve em conflitos com argelinos árabes por conta de seu vizinho. Meursault não reage a nada, ele só vive o que quer viver, mesmo que algo moralmente errado ou condenável aconteça por conta de seus atos, ele é indiferente, vive sem ilusões, recusando mentir sobre sentimentos que não possui.
Apesar de suas convicções, o mundo continua funcionando conforme as próprias normas, sendo o mesmo mundo que o julga, não pelo crime que custou diretamente a vida de uma pessoa, mas por sua incapacidade de aderir às normas sociais, especialmente por não ter demonstrado tristeza no funeral da mãe. A sociedade o condena não apenas como assassino, mas como alguém estranho aos valores humanos compartilhados. No fim, Ozon transmite à tela o absurdismo de Camus. Diante da morte certa, Mersault vivencia uma espécie de clareza, reconhece a ausência de sentido da vida e descobre uma forma de liberdade nessa aceitação, sem qualquer tipo de mentira ou de performance, apenas em sua sinceridade quase extrema.