Acho que a principal crítica negativa em relação aos longas de Wes Anderson — incluindo também as animações stop motion — se direcionam à repetição constante de sua estética excêntrica, focada na saturação das cores e nos cenários centralizados. Não concordo que isso configure um esgotamento artístico de seu estilo, mesmo porque Anderson sempre buscou se reinventar em suas propostas narrativas, indo de uma manifestação nostálgica de uma antiga Europa derrubada pelo fascismo em O Grande Hotel Budapeste, até um exercício metalinguístico em Asteroid City.
Dito isso, sinto-me levemente decepcionado com O Esquema Fenício, não apenas pela repetição da mesma fórmula visual de todos os seus antecessores — a qual, mesmo que não me incomodasse até certo ponto, se torna bem cansativa quando colocamos em uma perspectiva perdurável — mas também pela inconsistência com que seus elementos de black comedy são empregados na narrativa. Esse teor ácido do filme já fica explícito na primeira cena, quando o avião de Zsa-zsa Korda (Benicio Del Toro), sofre uma explosão na asa esquerda, matando acidentalmente o outro passageiro do avião, que tem sua parte posterior do corpo pulverizada. Exemplifico essa cena em específico, pois é a única que realmente utiliza bem essa abordagem, ainda que esse tom mordaz e irônico se mantenha pelo resto do filme, porém sem muita inspiração.
Além dessa ideia ácida que não recebe muita atenção durante a construção narrativa do filme, sua trama — que até parece soar interessante à primeira vista — é exaustiva em certos momentos, muito pela decupagem que Anderson realiza do texto. É tudo tão controlado e apressado que é bem provável você se perder no meio de todas aquelas peripécias, ainda mais quando ele opta por expandir a pequena mitologia daquele mundinho corporativo e periculoso que o personagem de Benicio Del Toro se aventura com sua filha Liesl (Mia Threapleton), sendo ele bem desinteressante na maior parte dos momentos.
Apesar da inconsistência que a narrativa do longa apresenta em sua maior parte, preciso admitir que Wes Anderson continua mandando bem demais em idealizar seus personagens dentro desse seu estilo quase que único, sendo Bjorn (Michael Cera) talvez a melhor coisa desse filme. Ele funciona como aquele coadjuvante peculiar que adere muito bem essa premissa de humor ácido que o longa possui, ainda mais quando a pequena reviravolta que o envolve ocorre, algo que faz seu personagem crescer ainda mais. Infelizmente esse se apresenta como o único ponto realmente positivo da obra, pois nem a dupla de pai e filha atinge esse nível de carisma que Michael Cera apresenta, algo que também deixa em claro a capacidade de contar histórias de Wes Anderson, mesmo que aqui ele realize de forma medíocre.
Se em A Crônica Francesa Anderson realizava uma estrutura narrativa diferente, com base no formato de contos jornalísticos, e em Asteroid City brincava com elementos de metalinguagem com seus estilos — inclusive unindo o stop motion ao seu live action — O Esquema Fenício talvez represente um pouco de reflexão de seu próprio método, pois é muito difícil manter uma filmografia com os mesmo elementos de sempre, mesmo que eles sejam bastante interessantes e divertidos em outras obras.