Antes de começar a tratar do filme em si, preciso dar um aviso. Muitos dos meus textos para a Plano Marginal começam com um alerta de spoilers diferente para cada situação. No geral, não costumo dar tanta importância a isso e deixo apenas por conta e risco do leitor. Porém, o caso desse filme em específico pede para que eu seja ainda mais veemente neste aviso, já que uma certa revelação que o próprio marketing fez o favor de esconder acaba sendo muito importante para toda a ideia do diretor Kristoffer Borgli na forma como conta essa história. Então, peço que realmente confiram o filme – já adianto que é ótimo e recomendo muitíssimo – antes de ler esse texto até o fim.

O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS PESADOS!!!

Em O Drama, acompanhamos um casal às vésperas de seu casamento, enquanto cumprem seus compromissos como noivos, escrevem seus votos, tiram suas fotos, escolhem flores, organizam convidados, elementos típicos de um típico filme de casamento. Em uma noite de bebedeira e papo furado com o padrinho e a madrinha, os noivos decidem compartilhar a pior coisa que já fizeram na vida. Enquanto todos contam histórias minimamente vergonhosas e um tanto reprováveis até a segunda página, a noiva Emma (Zendaya), em um momento de sinceridade extrapolada, revela que, quando adolescente, quase cometeu um massacre escolar.

A direção de Borgli, até esse momento, é de um naturalismo bem típico da curadoria da A24, bem pouco ambiciosa e prometendo muito pouco para o restante da narrativa. Quando a revelação se escancara, sua condução do desconforto generalizado daquele jantar é o que vai pautar praticamente toda a projeção. Por incrível que pareça, ainda mais depois dessa premissa, O Drama não se trata de um drama, e sim de uma comédia romântica. E definitivamente não é o tipo de romcom confortável a que estamos acostumados. Esse é um filme de mais profundo desconforto e incerteza e eu só descobri que estava assistindo a uma comédia quando os créditos subiram na tela.

Afinal, o que se segue é uma total mudança na perspectiva de Charlie (Robert Pattinson) sobre sua amada e qualquer coisa que sua futura esposa faça pode soar como uma ameaça a sua própria integridade física. Borgli nos coloca sob o ponto de vista de um homem que vê tudo que conhecia sobre sua noiva desfazendo-se aos poucos, incluindo sua própria atração por ela. E é nesse ponto que entra a manipulação de percepções que o diretor cria aqui, fazendo com que a surpresa da cena do jantar seja tão preciosa a ponto de precisar daquele meu parágrafo de aviso no início do texto.

A personagem de Zendaya não é uma homicida. Mesmo assim, nós a enxergamos dessa forma porque Charlie a enxerga dessa forma. Não pudemos digerir a informação assim como ele não pôde e essa descoberta faz com que todos os planos construídos por Borgli e comentados pela ótima trilha de Daniel Pemberton reforcem ainda mais o pavor do noivo ao sempre encarar sua pretendente. É daí que vem o humor do filme, já que Zendaya, acostumada com suas personagens mais blasé, é ótima para encarnar uma mulher belíssima, carismática mas que, depois do causo, soa indiferente sobre suas próprias ações, como se não se importasse devidamente com o que quase fez quase duas décadas antes. Enquanto isso, Pattinson parece ter saído de uma comédia screwball dadas as suas expressões de pânico constante e sua fisicalidade de alguém que está sempre equilibrando-se à beira do precipício da insanidade.

As situações criadas pelo roteiro do próprio diretor quebram o naturalismo da encenação justamente usando as performances do elenco como um instrumento de contraste, já que o longa segue nos rituais matrimoniais de forma deslocada, caótica e sarcasticamente ácida. Vale destacar, por exemplo, toda a passagem da fotógrafa (vivida pela sempre ótima Zoë Winters) e, é claro, a disposição dos personagens coadjuvantes que vão se amontoando na própria cerimônia de casamento em si, fazendo com que o pensamento de uma reimaginação de Quatro Casamentos e um Funeral (Newell, 1994) ganhe novas camadas mais sensíveis.

Por falar em sensibilidade, quero comentar mais especificamente sobre a polêmica em relação à revelação de Emma – e é claro que ela existiria, o assunto em questão chama isso de uma forma ou de outra. Muitas vítimas de tiroteios escolares ou até parentes delas vieram a público questionar a forma como Borgli banaliza essa problemática em sua narrativa. Como julgar? Ou melhor: pra que julgar? Não podemos controlar o que pessoas que passaram por experiências como essas podem sentir ao serem confrontadas com um filme desse tipo. Na verdade, é extremamente natural que se sintam feridas ou desrespeitadas. É um risco que o próprio realizador corre ao fazer essa escolha.

Porém, acho que a própria abordagem dramática de Borgli é um ensinamento para quem quer ou defender a obra ou malhá-la como uma afronta a casos tão comuns nos EUA dos dias de hoje. Ao descobrir o segredo sombrio de sua parceira, Charlie quase acaba com a vida que poderia fazê-lo extremamente feliz. Mas podemos culpá-lo? Seríamos tão magnânimos a ponto de agirmos diferente ao sermos impactados pela mesma informação? Creio que não. E quando falamos de Emma, uma menina negra em um contexto específico de sua formação hormonal em que tinha mais acesso do que deveria a telas e a uma rede desregrada em um país que glorifica a estética armamentista como sinal de força? Podemos achar sua atitude pavorosa e criminosa, mas como julgar exatamente?

Talvez esse seja o grande trunfo de O Drama em um contexto social em que opinamos sobre tudo e temos mais certezas do que dúvidas ou questionamentos. É um filme que não julga, que não oferece certezas. Na verdade, presenteia-nos com incertezas tão macabras que nos provoca a interpretarmos papéis de algozes e vítimas em uma comédia de erros em que ninguém sabe quem são os algozes e quem são as vítimas. Será que essa divisão aqui sequer existe? Essa é a beleza de O Drama, talvez uma das romcoms mais complexas que já tive o prazer de assistir.