Seguindo a intensa onda de sequels e remakes lucrativos que se aproveitam da nostalgia do público para encher as salas de cinema, 2026 nos traz a sequência — por muitos, bastante antecipada — de O Diabo Veste Prada (Frankel, 2006).
Admito não ser adepta da proposta dos estúdios de refazer ou continuar filmes, principalmente quando o original tem início, meio e fim bem definidos, e os intervalos gigantescos entre o original e o novo lançamento — neste caso, exatamente 20 anos — demonstram a falta de necessidade de uma outra obra, apesar da existência de um segundo livro, A Vingança Veste Prada (Lauren Weisberger, 2013) cuja narrativa diverge completamente do novo filme.
Dito isso, é difícil imaginar alguém que é fã do primeiro filme desapontado com O Diabo Veste Prada 2. É engraçado na dose certa, carrega grande parte do charme do anterior e é recheado de momentos gratificantes, principalmente quando se trata dos membros da revista fictícia dos filmes — a famosa Runway.
Meryl Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci (o ponto alto do filme, para mim) retornam aos seus papéis como se tempo nenhum tivesse passado, navegando a linha tênue entre nostalgia e atualidade de forma exemplar e encontrando novas nuances para seus personagens. Anne Hathaway, no entanto, apesar de certa evolução profissional, parece ter tido pouco progresso como personagem e força um carisma que parece vir naturalmente aos demais.
Para esta crítica, reassisti ao primeiro filme, que nos apresenta a dinâmica entre Miranda Priestly (Streep) e Andy Sachs (Hathaway) como chefe e secretária e nos permite acompanhar a formação de um laço entre as duas, apesar de suas desavenças e dificuldades. Essa dinâmica se mantém nessa nova versão de suas personagens e, eventualmente, evolui aos trancos e barrancos graças à imaturidade de Andy, que segue repetindo os mesmos erros do longa de 2006.
A rivalidade feminina é deixada de lado e substituída — principalmente no caso de Andy — por uma relação interpessoal de trabalho mais saudável. Por conta de sua primeira experiência na revista, a protagonista faz de tudo para que os funcionários que ocupam cargos mais baixos na empresa, como ela ocupou anteriormente, tenham uma experiência mais positiva. Isso é um dos grandes pontos fortes do filme, permitindo diversos easter eggs, paralelos e momentos cômicos que fazem a sala de cinema vibrar.
Uma surpresa muito positiva foi o retorno de Tracie Thoms como Lily, a melhor amiga de Andy. Em um mundo em que mulheres são constantemente antagonizadas, foi muito interessante ver como os 20 anos, que se passaram tanto dentro do universo fílmico quanto fora, mantiveram essa união; algo que ocorreu também na produção, em que Alina Brosh McKenna (no roteiro) e David Frankel (na direção), retornam juntos.
Nigel (interpretado por Stanley Tucci) conecta todos os elementos do filme e nos leva de volta ao universo do primeiro. Mais até do que a própria Andy. A dinâmica entre Nigel e Andy retorna como se tempo algum tivesse passado e com ela retornam os empréstimos de roupa, os comentários ácidos e os conselhos de moda tão presentes no filme de 2006. Quando Tucci e Streep compartilham cenas, é impossível tirar os olhos deles, principalmente no terceiro ato do filme. Sem spoilers!
Das novas adições, nenhuma se destaca individualmente, mas é interessante ver como a Revista Runway evoluiu, como movimentos como #MeToo e as gerações Z e Alpha impactaram não só o material publicado e as plataformas nas quais isso é feito, mas também as políticas internas da empresa, e como Miranda Priestly é forçada a acompanhar parte dessa evolução.
O comentário sobre o estado deteriorado da mídia moderna e as pessoas que lutam desesperadamente para mantê-la viva torna válido revisitar esses personagens todos esses anos depois, mesmo que não funcione por completo, é extremamente relevante; porém não acerta o alvo completamente, deixando a desejar na execução e na entrega. Em diversas ocasiões, McKenna e Frankel parecem não saber ao certo qual é a intenção do filme, o que faz com que pareça forçado à la Grey’s Anatomy (cujos episódios mais “políticos” têm um ar novelesco e a exposição é quase exclusivamente através de diálogos), e perdem a força que os momentos poderiam ter.