O Bosque Selvagem (2026) é o mais novo lançamento do estúdio Laika, famoso por Coraline e o Mundo Secreto (Selick, 2009), e por ser um dos poucos ainda trabalhando com a técnica do stop motion. Quem dirige o filme é o próprio CEO da Laika, Travis Knight, que tem em seu currículo outros longas de animação do estúdio, como Kubo e as Cordas Mágicas (2016), e também longas em live action, como Mestres do Universo (2026).
O Bosque Selvagem é baseado em um livro (cujo título é o mesmo do filme em inglês, Wildwood), que Travis Knight teria lido no ano de seu lançamento, 2011, e desde então adquirido os direitos autorais para um filme de animação. Esse era, no entanto, um projeto ambicioso demais para o estúdio na época, e por isso Knight deu prioridade para outros longas. Assim, a produção de O Bosque Selvagem começou apenas em 2021, e o filme levou nada menos do que cinco anos para ser concluído.
O nível de detalhe e fluidez da animação é realmente impressionante. Os cenários são um deslumbre; desde a floresta gigantesca, a reconstrução das casinhas e do comércio local da cidade onde a história se passa, até a decoração do quarto da protagonista, com todos os seus minúsculos detalhezinhos. Além dos bonecos dos personagens terem mais de vinte rostos diferentes para o movimento necessário em apenas um segundo de animação, suas roupas e cabelos também são moldáveis para, por exemplo, dar a sensação de mexer com o vento. Houve uma preocupação até mesmo com um mecanismo para permitir simular a respiração.
É importante frisar o cuidado, a minúcia do trabalho manual e os anos investidos nesse filme, principalmente em tempos em que somos bombardeados com lixo advindo de Inteligência Artificial por todos os lados. Lembrar que arte não depende de praticidade, não escolhe um meio por ser o mais lucrativo.
Dito isso, a história tem seus altos e baixos. Começa impactante, com o suicídio de um menino adolescente, cujo maquinário no peito aberto mostra se tratar de alguma espécie de autômato, em meio a personagens e um cenário que remete a um século XIX fantasioso, com uma pitada de steampunk. Logo depois somos levados ao real início da trama, seguindo a pré-adolescente Prue em um dia comum na cidade de Portland, nos Estados Unidos. Portland é mostrada como uma cidade de hippies, com casinhas coloridas, artesanato, cafés; pela qual Prue anda de bicicleta carregando seu irmão bebê, Mac, numa pequena carroça presa ao veículo. O dinamismo da sequência é fascinante, e em sua curta duração o espectador já consegue entender como é o mundo no qual essa personagem vive. A aventura começa quando Mac é sequestrado por um bando de corvos, e Prue prontamente tenta segui-los com sua bicicleta (em outra excelente sequência de ação) até uma floresta onde ninguém ousa entrar.
Um colega de Prue, Curtis, é levado por ela por acidente no meio da confusão, e decide ajudá-la a enfrentar os perigos da floresta para encontrar Mac. Aqui a história passa a seguir os pontos típicos desse tipo de fantasia infanto-juvenil: com animais falantes, povos diferentes que parecem viver em alguma época do passado, magia. Prue e Curtis acabam separados em seus caminhos, conectando-se cada um com uma trupe de personagens diferentes, que se juntam no final para impedir que o mal tome conta da floresta.
A antagonista da história é uma mulher chamada Alexandra. Ela governava o sul da floresta de maneira pacífica, até a morte acidental de seu filho a fazer mexer com magia das trevas para trazê-lo de volta na forma de um autômato — cujo fim foi o suicídio mostrado na primeira cena do filme. Ela agora está exilada e lidera o bando de corvos que sequestrou o bebê Mac, além de um exército de coiotes. Seu objetivo é sacrificar o bebê para controlar as poderosas heras que estão adormecidas no centro da floresta, e, com o seu poder, trazer o seu filho mais uma vez de volta à vida. A obsessão de Alexandra com o seu filho, na maneira como não aceita que nem mesmo a morte o tire dela, é, ao mesmo tempo, triste e assustadora. Por mais que ela agora seja uma tirana, é interessante como basta que o espectador entenda a sua dor imensurável para ter simpatia por ela.
No final descobrimos por que motivo Alexandra precisava sacrificar especificamente o bebê Mac para alcançar seus objetivos — além de termos a reação mais passiva que eu já vi em pais da ficção ao saber que seu filho foi sequestrado. E, enquanto Alexandra carrega toda a sua bagagem de não-conformidade com o luto, Prue quer apenas salvar seu irmão, e para isso precisa acreditar na magia que existe dentro dela.
A batalha entre o exército de Alexandra e os habitantes da floresta (bandidos e fazendeiros, reunidos por Prue e Curtis) é sensacional, tanto por exaltar o poder de pessoas comuns quando se unem em prol de um bem maior, quanto por não ter receio de mostrar a violência, morte e dor em uma guerra. No entanto, o embate final entre Alexandra e Prue acaba ficando anti-climático na comparação, para mim, especialmente, por remeter a outro filme de fantasia envolvendo um protagonista tido como fraco e um bebê: Willow — Na Terra da Magia (Howard, 1988). Por mais que as duas histórias sejam, no geral, muito diferentes, foi impossível para mim não me lembrar desse clássico dos anos 80 quando havia duas bruxas poderosas (Alexandra e Iphigenia, a líder da comunidade do norte da floresta) lutando uma contra a outra em uma espécie de torre, enquanto um bebê está prestes a ser sacrificado e a protagonista precisa de alguma maneira salvá-lo. Em Willow — Na Terra da Magia, Willow usa sua sagacidade para enganar a vilã, fazendo um truque de ilusionismo que estava acostumado a performar para o seu vilarejo, e é mostrado no início do filme como bobo, desimportante diante da mágica verdadeira; e é graças às habilidades dessa pessoa comum que a vitória é possível. Já O Bosque Selvagem aposta no clichê da personagem que precisa apenas acreditar na existência magia em si mesma para vencer. Prue, portanto, não precisa de qualquer habilidade específica, não precisa aprender uma lição, enfrentar seus medos, mudar qualquer coisa sobre si mesma; ela derrota a antagonista (spoiler?) quando pede por favor às heras para ajudá-la.
O que era para ser uma história sobre amadurecimento, ilustrada pela fala de Iphigenia a Prue, “You think you outgrew magic, but magic didn’t outgrow you” (em tradução livre, “você acha que está ‘grandinha’ demais para a magia, mas a magia não esqueceu de você”), resume esse amadurecimento à ideia abstrata de acreditar em mágica. E, por mais que toda a estética do filme seja profundamente pagã, foi impossível para mim não relacionar a ideia de magia da história à ideia de um transcendente; ou seja, tudo acabou me parecendo acidentalmente cristão demais.
Suponho que o motivo pelo qual esse livro específico que deu origem ao filme tenha sido tão amado por Travis Knight seja o fato de se passar em Portland, a cidade sede do estúdio Laika. Toda a fantasia do Bosque Selvagem parte da premissa de que o parque Forest Park de Portland é na verdade esse mundo onde vivem pessoas diferentes e seres mágicos; a mansão que é sede do governo do sul na história, por exemplo, existe dentro do parque na vida real; o local do parque que na ficção é onde fica o povoado das aves, na vida real é onde está sediada uma organização dedicada à proteção do habitat dos pássaros. Deve ser realmente muito divertido ver sua própria cidade representada e reconhecer elementos do cotidiano que foram repensados em um contexto de fantasia.
Para quem não tem essa vivência, O Bosque Selvagem é meramente um filme de fantasia infanto-juvenil com personagens pré-adolescentes estadunidenses sem graça, e alguns momentos interessantes na trama; cujo mérito está muito mais no meio usado para contar a história do que na história em si.