Esse é o filme da Barbie para as garotas “esquisitas”. Os bonecos de He-Man e companhia também foram lançados pela Mattel, em 1982, porque precisavam de brinquedos voltados para meninos e tinham acabado de perder o licenciamento de Star Wars. Eles tentaram outros personagens licenciados, que deram errado, e assim resolveram criar do zero os heróis e criaturas que se tornaram, posteriormente, os habitantes do reino Eternia. Para se diferenciar dos outros bonecos do mercado, os Mestres do Universo eram maiores e tinham mais detalhes e articulações, eram inspirados em fantasia medieval e bárbaros (aproveitando o sucesso de Conan, O Bárbaro), mas também tinham robôs, armas de fogo e naves intergalácticas.

Com o sucesso da linha de brinquedos, foram lançadas histórias em quadrinhos, que desenhavam a história pregressa dos personagens, bem como suas personalidades, mas o que aumentou significativamente a venda dos bonecos foi a série animada de 1983. Essa série, He-Man e os Mestres do Universo, junto com a posterior — dessa vez voltada para meninas — She-ra: Princesa do Poder (1985), fizeram um sucesso enorme; no Brasil ganharam até canções icônicas interpretadas por Xuxa e, a mais famosa, pelo Trem da Alegria.

Dessa forma, não demorou para He-Man ganhar uma versão para o cinema, em 1987, estrelada por Dolph Lundgren. O filme, porém, foi um fracasso, já que pouco mostrava de Eternia e o herói basicamente caminhava de um lado para o outro com jovens terráqueos, em uma cidadezinha de Nova Jersey. Assim, demorou quase 40 anos para que uma nova versão live action do herói ganhasse um filme — não ironicamente, depois do sucesso de Barbie (Gerwig, 2023).

A narrativa agora começa em Eternia, com o pequeno e desajeitado príncipe Adam (Artie Wilkinson-Hunt) sendo treinado em combate pelo Mentor (Idris Elba) e tendo como amiga a jovem Teela (Eire Farrell). Porém a paz é arruinada quando o Esqueleto (Jared Leto) invade o reino a fim de ter a posse da Espada do Poder. O príncipe, então, é salvo pela Feiticeira (Morena Baccarin) e exilado na terra com a tal espada mágica, que também é o seu passaporte de volta para Eternia. O garoto, porém, perde a espada ainda na jornada de ida e agora Adam (Nicholas Galitzine), 15 anos depois, finalmente consegue uma indicação para encontrar o objeto que pode mostrar o caminho de casa — e contará com a ajuda de Teela (Camila Mendes) nesta jornada.

O longa não demora para levar a ação de volta à Eternia, corrigindo o erro do predecessor, mas não sem antes Dolph Lundgren passar a tocha para Nicholas Galitzine como um conselheiro maromba. Mestres do Universo, aliás, apela completamente para a nostalgia de quem acompanhou o personagem durante todos esses anos — das referências intrínsecas ao universo, como no visual (figurinos, cenários, design de produção) muito próximo ao do desenho até os memes famosos, como o do He-Man cantando What’s Up, do 4 Non Blondes. Isso é bom, porque demonstra o respeito pelo material de origem, mantém o tom cômico descompromissado e camp, que fez o sucesso da série animada, bem como reconhece que a ideia de ultra-masculinidade do brinquedo hoje é um tanto ridícula.

A questão é: isso funciona para quem está conhecendo o personagem agora? A trama talvez pareça genérica e bagunçada, pois segue os passos clássicos de uma jornada do herói, mas não se leva a sério suficiente para ser um grande épico: os cenários são extravagantes, o herói é bobo e desajeitado, os vilões são caricatos, os aliados nem se fala — alguns têm nomes esdrúxulos e que são usados com duplo sentido em algum momento. Além disso, também não chega a ser uma paródia do gênero de fantasia medieval ou espacial, o que pode confundir o espectador desavisado.

Entretanto, é essa autoconsciência que diferencia o filme de outros do gênero — apesar de que lembrei bastante de Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes (Dailey, Goldstein, 2023) — inclusive os tantos de super-heróis. Tem alguns clichês claramente advindos desses filmes, um exemplo óbvio sendo o uso de músicas pop em cenas de ação, mas são bem colocadas e marcantes, desde um “I Got the Power” quando Adam está prestes a enfrentar seu primeiro inimigo, até um “Princess of the Universe” quando a gangue se une para um embate com o Esqueleto. Essas cenas de ação também mantém a comicidade, principalmente com o He-Man desengonçado, mas são bem realizadas na mistura do uso de armas mistas, mágica, naves espaciais, robôs, explosões e lutas marciais, sem perder o foco narrativo e a sequência de movimentos.

Assim, o filme busca um apelo universal (e não somente das garotas esquisitas) que justifique o orçamento nas centenas de milhões de dólares, mas que acredito que não consegue atingir, ficando refém da nostalgia. Além disso, também esconde um pouco o subtexto gay do personagem — que nas histórias originais vive uma vida dupla, na qual esconde que é o He-Man (o herói gostosão de tanga e arreio), além de ter diversos “bromances” e não tem um par romântico — perdendo parte do público que manteve o personagem no imaginário como um ícone da comunidade. Apesar de manter o visual homoerótico, o longa deixa no ar o interesse de Adam por mulheres, embora tenha dificuldade para relacionamentos amorosos, e por consequência da trama, todos sabem que o príncipe é o He-Man. É triste que esse aspecto do universo de Eternia não seja explorado, como fez maravilhosamente bem a série animada She-Ra e as Princesas do Poder (2018-2020).

No meu caso — que brinquei com os bonecos originais, assistia os desenhos animados e seguia as lições de moral, dancei com o Trem da Alegria, fiquei esperando o retorno do Esqueleto prometido no fim do filme de 1987, decorei o meme com a música do 4 Non Blondes e ainda assisti às novas adaptações animadas — o filme foi um deleite. Aquele clima no qual uma galerinha da pesada se mete em altas confusões numa aventura alucinante de tirar o fôlego, sabe?