Não Fale o Mal é o remake estadunidense do filme homônimo dinamarquês lançado em 2022, dirigido por Christian Tafdrup. Ambos seguem a mesma premissa: um casal com uma criança conhece outro casal com uma criança durante as férias na Itália e, depois de meses, um convida o outro para visitá-los em casa. Isso é tudo que posso tecer de comparação com um e outro, pois não assisti o longa original. Portanto, vou falar como alguém que não sabia o que esperar da narrativa do filme.
Naturalmente, por ser um filme de terror, a expectativa sobre o que de ruim vai acontecer é presente desde o início. Por mais que a conversa entre os dois casais e a interação entre as duas crianças seja agradável, engraçadinha e ensolarada, sempre há um ar de tensão, como se algo não estivesse certo ali. E, desde o início, Louise (Mackenzie Davis) não está totalmente confortável com o novo casal de amigos, mas seu esposo, Ben (Scoot McNairy) parece não estranhar a situação.
O convite irrecusável do casal, composto pelo extrovertido Paddy (James McAvoy) e sua jovem esposa Ciara (Aisling Franciosi) chega em uma Londres chuvosa meses depois. Ben, que perdera o emprego, e Louise, ainda relutante sobre o casal de desconhecidos, aceitam e viajam com a filha, Agnes (Alix West Lefler) para o sítio onde Paddy e Ciara moram com o filho Ant (Dan Hough), o qual tem uma condição que o faz não conseguir falar.
Está formada assim a situação que vai dar início à trama em si. A tensão entre Louise e Paddy, principalmente, é o fio condutor de tudo o que vai se desenrolar em seguida, e a dinâmica entre os ótimos James McAvoy e Mackenzie Davis é sem dúvida o ponto alto do filme. Ela é uma mãe protetora e carinhosa, mas uma esposa firme, com questões dentro do casamento com um marido palerma. Paddy, por sua vez, é extravagante e dominador, por vezes agressivo e impetuoso, o que Louise vê com apreensão e receio, enquanto Ben admira e almeja.
Quando a narrativa vai para esse caminho de comparação das dinâmicas dos casais fica bem interessante, pois é notável a diferença no funcionamento de poder nos dois casais e isso será definidor para o desenrolar dos acontecimentos. Gostei particularmente da personagem da Mackenzie Davis, por ela ser mostrada como uma mãe moderna, com desejos para além da maternidade e do matrimônio, bem como as frustrações que vêm com isso. E também como ela despreza homens como o Paddy, ao mesmo tempo que pede para que o Ben assuma mais responsabilidades na família.
As crianças também, os dois excelentes atores, especialmente o menino, são bem desenvolvidas, com personalidades peculiares que se complementam. Ela mais ansiosa e inteligente, ele mais tímido e perspicaz, ambos são essenciais para entender o que está acontecendo e que irá proceder dali em diante. Nós, como espectadores, nos sentimos desconfiados como a Louise, mas vamos montando as peças do quebra-cabeças junto com a menina.
O problema é que todo esse aparato de construção de expectativa e tensão – que, por sua vez, não é tanto assim, visto que não é difícil de entender logo o que pode acontecer – culmina em um desfecho corrido e confuso. A direção falha em posicionar o nosso olhar no espaço e também em mostrar de maneira distinta e previamente os lugares, de forma que as ações ficam ininteligíveis e, portanto, perdem o impacto. Dessa maneira, a parte de terror do filme não se sustenta efetivamente como tal e fica aquém do drama familiar preestabelecido.