Quando lançou o drama espectral Sombras da Vida (2017), o diretor David Lowery demonstrou conseguir mergulhar no melodrama a partir do minimalismo e da simplicidade. Em uma cena emblemática e potente, por exemplo, uma enlutada Rooney Mara comia uma torta enquanto desabava emocionalmente em um plano fixo de mais de cinco minutos. Já em seu A Lenda do Cavaleiro Verde (2021), ele parecia conduzir uma fantasia sombria e suficientemente tátil com uma abordagem devidamente lisérgica que lançava um ambicioso Dev Patel em uma grandiosa e edificante jornada de ruína pessoal — uma ironia inteligentíssima da narrativa de Lowery.
Essa sua habilidade de trabalhar com conceitos aparentemente opostos de forma complementar ao invés de se anularem foi o principal motivo para eu ter me interessado muito por Mother Mary, seu novo lançamento depois de uma passagem mais comercial por Peter Pan e Wendy (2023). Neste filme, acompanhamos a cantora pop problemática Mother Mary (Anne Hathaway) enquanto visita sua ex-namorada estilista Sam Anselm (Michaela Coel) no Reino Unido em busca de um vestido que reflita seu novo “eu” para o próximo show, que ocorrerá dali a três dias. Confinadas em um celeiro que funciona como workshop de costura, as duas discutem seu relacionamento prévio conturbado e a nova crise de identidade de Mary depois de um macabro “acidente” com uma instalação de palco que quase tirou sua vida.
Lowery parece continuar trabalhando com opostos em diversas facetas. Se por um lado o foco dramático do filme inteiro se passa dentro de apenas uma locação pouco floreada, podendo funcionar até como peça teatral, por outro alterna em vários momentos com os shows vistosos de Mary, destacando, em planos abertos, silhuetas de dançarinos em painéis de LED. Se por um lado o prólogo é construído como um videoclipe vistoso, com cortes rápidos e ritmados e letreiros redundantes (quase como um trailer, na verdade), por outro todo o resto é baseado em planos e contraplanos em uma decupagem econômica que, por si só, não é nenhum demérito.
O problema é quando toda essa abordagem de opostos funciona não para potencializar a ideia da obra, como acontecia nos filmes anteriores do cineasta, mas sim como distração do quão vazia toda essa narrativa é. Afinal, Lowery aqui demonstra uma dificuldade inacreditável em enfrentar emoções humanas de peito aberto. Além dos diálogos serem escritos com uma linguagem mais rebuscada do que o necessário e de maneira quase literária, a direção da personagem de Coel a transforma em uma caricatura do gênio de frases rápidas e comportamento alienado, criando explosões de expressividade em Sam que soam artificiais ou até vexatórias, como o momento do dente.
Falando em tal momento — não que isso seja novidade para o diretor —, os simbolismos e metáforas visuais construídos aqui são tão básicos e rasos que é clara a imaturidade para abordar temas como depressão, relacionamentos conturbados, culpa católica e a pressão do show business. Tudo isso acaba sendo abandonado no meio do caminho, à medida em que o longa se perde nas suas próprias representações visuais, ainda conseguindo construir uma “subtrama” que talvez seja o ápice do tal “terror elevado” da curadoria da A24.
É até interessante apontar como as próprias músicas de Mary, compostas na vida real por Charli XCX e Jack Antonoff, revelam a imaturidade dramática do filme. Primeiramente, fica óbvio que os shows de visual rebuscado e conceitual da cantora fictícia fazem referência à artistas como Taylor Swift (por muito tempo colaboradora de Antonoff) e Beyoncé como uma forma de vender melhor o filme, conversando com um nicho específico da música pop. Em segundo lugar, as músicas de Mary, de autoria dela mesma, parecem o mais puro pastiche de pop eletrônico. Irônico, já que o filme encena suas performances no palco como se revelassem um lado obscuro sobre a personagem e seus demônios internos.
E não é como se a atuação de Hathaway ajudasse muito a alavancar essas questões, já que parece interpretar sua personagem sob duas caricaturas: a da mulher atormentada de olhar vazio e a da mulher atormentada de rosto embargado. Não existe muita nuance em sua performance e é de impressionar que seu papel mais coadjuvante em A Odisseia (2026) seja muito mais complexo dramaticamente — e olha que é um filme de Christopher Nolan, diretor não tão popular por suas personagens femininas bem desenvolvidas.
Quando impõe ao público um desfecho que parece muito catártico, muito significativo e, pior, muito melodramático, o que parece é que Lowery queria que a emoção se materializasse magicamente diante de um filme que foi tudo menos emocional. Na verdade, Mother Mary acaba como uma grande bobagem digna da A24 dos últimos anos: calculadinha demais, amedrontada de abordar sentimentos reais e de um pedantismo tão aborrecido que eu não pude evitar de dar risada quando os créditos começaram a subir. Aí eu pergunto: o que diabos aconteceu com David Lowery?!