Mortal Kombat (2021) é fascinante em como consegue entregar o que os fãs queriam – violência e referências aos jogos – e ao mesmo tempo fazer as piores escolhas narrativas possíveis. Esse é um daqueles filhos da pandemia, lançado simultaneamente nos cinemas e no HBO Max e talvez por isso esteja em um limbo de bilheterias ruins e críticas mistas, mas com muito sucesso no streaming.
A jornada foi longa até o lançamento do que, inicialmente, seria o terceiro filme da franquia. Desde quando Mortal Kombat – A Aniquilação estava nos cinemas, em 1997, havia conversas sobre o desenvolvimento de uma continuação. No entanto, com o fracasso de bilheteria, a falência da produtora e a aquisição da Midway (criadora dos jogos) pela Warner, apenas em 2010 o projeto voltou a andar, quando o curta independente Mortal Kombat: Rebirth, de Kevin Tancharoen, viralizou e chamou a atenção do estúdio. Com a divulgação por engano do que era para ser um pitch de um reboot da franquia, o diretor chegou a ser chamado para negociações sobre dirigir um possível longa, mas no fim das contas ficou responsável pela websérie Mortal Kombat: Legacy, junto com seu roteirista Oren Uziel, onde expandiu a ideia do curta em duas temporadas, de 2011 e 2013.
O tom dos dois projetos era mais sério (leia-se “sombrio e realista”) do que os dois filmes anteriores, que tinham censura PG-13 (o equivalente a 12 ou 14 anos por aqui). Também tinham um elemento de fantasia proeminente, especialmente em relação aos vilões e a expansão do universo dos jogos – a principal crítica ao filme de 1995, aliás, era não ser tão soturno e sangrento quanto o videogame já era na época existia a intenção de fazer um novo filme que sanasse isso.
Foi assim que, com produção de James Wan, direção do australiano estreante Simon McQuoid, e baseado no roteiro inicial de Uziel, Mortal Kombat (2021) foi escrito com a mesma ideia de Rebirth e Legacy de estabelecer um novo universo concreto e complexo. Ao mesmo tempo em que, com a censura R (16 anos), pôde explorar elementos do jogo, como os Fatality, de forma explícita. Entretanto, essa abordagem não é construída de maneira eficaz, visto que o tom varia muito entre canastrão, melodrama e expositivo.
Além da tentativa de se firmar como sombrio e realista, outro considerável problema do filme tem nome e sobrenome: Cole Young (Lewis Tan), o protagonista criado especialmente para o longa. Eu ainda não entendi qual foi o raciocínio por trás dessa decisão; é claro que não tem como falar que o filme é ruim somente por causa de um personagem mas, por outro lado, a existência dele é boa parte do que me incomodou na trama (e também em algumas escolhas visuais). Ademais, na tentativa de aprofundar a construção de personagem e de universo, parece que a produção resolveu usar todas as ideias, enfiar a maior quantidade de referências possíveis e colocar a maior parte das lutas acontecendo ao mesmo tempo no final. Também criou uma história inédita, com linhagens, profecias, marcas e descoberta de superpoderes, cuja explicação toma a maior parte da duração do longa.
Mas antes, a história começa no Japão de 1617, com a origem do conflito de dois velhos conhecidos dos fãs: Hanzo Hasashi/Scorpion (Hiroyuki Sanada) e Bi-Han /Sub-Zero (Joe Taslim), em uma sequência que mistura bem melodrama e combate, e termina com Raiden (Tadanobu Asano) salvando um bebê. Então, é dito por uma profecia que o sangue de Hasashi será responsável por unir os campeões de Earthrealm (a Terra) contra Outworld e vencerá o torneio conhecido como Mortal Kombat. Em 2021, o nosso herói, Cole Young, está perdendo uma luta de MMA, enquanto o vilão Shang Tsung (Chin Han) envia seus guerreiros para garantir a vitória eliminando todos os campeões de Earthrealm, que tem na pele a marca do dragão.
A importância do protagonista é mais dita do que mostrada. Ele, de início, é aquele tipo de personagem para quem os outros contam a trama, e em seguida é parte do núcleo emocional, com quem devemos nos importar mais; depois dá a entender que ele vai se tornar líder, como diz a profecia, só que a realidade é que ele apenas existe ali, sem fazer nada de interessante. E isso em um filme recheado de personagens dos jogos. É então que Cole, sua esposa e filha, são salvos por Jax (Mehcad Brooks) de um ataque de Sub-Zero e, após uma perseguição em que o vilão poderia tê-lo matado várias vezes, encontra Sonya Blade (Jessica McNamee), que vai explicar o porquê de ele estar nessa enrascada e o que significa a marca dos escolhidos para defender Earthrealm.
É então que, em determinado momento da narrativa, Cole, Sonya, Jax e Kano (Josh Lawson) encontram Raiden, Kung Lao (Max Huang) e Liu Kang (Ludi Lin) para treinarem juntos para o torneio e despertarem a sua “arcana”, um poder especial. Conhecendo os personagens, é possível imaginar o que cada um vai conseguir fazer, porém o protagonista é um mistério, visto que não há referência prévia. Eis que o poder dele é uma “brusinha” que absorve impacto e um par de tonfas (um tipo de bastão). Compreendo que faz parte da ideia já estabelecida na primeira cena, na qual ele apanha mais do que bate, e também do objetivo dele de proteger a família, mas jura que essa foi a melhor opção para um personagem criado do zero? Durante a luta em que consegue a arcana, ele se mostra um lutador tão patético que a filha dele ainda precisa lembrá-lo de usar um gancho contra o oponente.
Não que os outros campeões tenham momentos melhores também, já que, ou estão despejando informações, ou soltam uma piadinha inoportuna, alguma referência aos jogos. O destaque, pasme, é o Kano. Quando estão juntos parece que ele é o protagonista, daquele estilo meio anti-herói canastrão e relutante. Além de ter muito mais carisma do que a maioria do elenco, o ator conseguiu criar um personagem consistente, no jeito de falar e nos movimentos, e com presença, mesmo com o roteiro dando pouco espaço para isso. Algo, aliás, que Cole, com todo o histórico e tempo de tela, não alcança.
Em Mortal Kombat (1995), após uma breve introdução de quem são os personagens principais e suas motivações, o início do torneio já é declarado (em cerca de 15 minutos de filme); além disso, os embates são espaçados e a dificuldade vai escalando, com cada personagem tendo seu momento. Já em Mortal Kombat (2021) não há torneio, no fim das contas. Shang Tsung consegue invadir o local de treinamento com seus capangas (também personagens vindos dos jogos) e cada um dos campeões escolhe um dos outros para eliminar. Com isso, chega finalmente o aguardado momento sangrento e cheio de referências aos golpes do jogo, que, apesar da edição completamente picotada (mesmo com a maior parte dos atores também sendo lutador), compensa um pouco no fanservice.
É após esta sequência que o longa, finalmente, entra na reta final e retorna ao que importa: Scorpion vs Sub-Zero. A essa altura, a família do protagonista foi congelada pelo vilão e ele, mais uma vez, precisa de ajuda. Com isso, seu antepassado retorna diretamente do inferno para consumar sua vingança – e para o espectador ver um embate com um peso real (aliás, é a primeira vez que eu vejo o lutador congelar o sangue que espirrou do outro, e usar como adaga para golpeá-lo novamente). Nesse momento, o nosso herói enfim tem a chance de mostrar a que veio e consegue participar, mas ainda assim é ofuscado pela presença de Scorpion.
É notável o esforço para agradar os fãs e o carinho da produção em criar ambientação, figurinos e efeitos especiais incluindo o máximo possível do material original. Existe também uma preocupação em ter um elenco que sabe lutar, em elaborar um drama consistente e uma construção de mundo que faça sentido. Entretanto, talvez por ainda querer manter uma seriedade “sombria e realista”, precisaram criar explicações para cada mínimo detalhe de tudo, o que, de certa forma, acaba ressaltando quando há uma falha na lógica interna da história. Isso resulta em incoerências e complicações narrativas desnecessárias. Assim, o filme parece um emaranhado de ideias mal desenvolvidas e inacabadas, com uma clara intenção de apenas introduzir a história para desenrolar numa sequência (que vem aí).