Em 2019, saiu o trailer da adaptação em live-action da série de jogos de videogame Sonic the Hedgehog, fazendo com que o design em CGI do personagem-título viralizasse instantaneamente por ser a coisa mais horrenda já vista até então. As críticas foram tão massivas que a produção pediu desculpas e adiou o lançamento do filme para que pudessem redesenhar o personagem. Depois de três filmes bem-sucedidos, o “Sonic feio” tornou-se um símbolo de que, às vezes, vale a pena ter humildade de reconhecer os erros e ouvir os fãs. Parece que o mesmo ocorre agora com Mortal Kombat.
O longa de 2021 introduziu a história dessa nova franquia baseada nos jogos de luta com um personagem criado especialmente para as telonas: Cole Young (Lewis Tan). Ele era descendente de Hanzo Hasashi, ou Scorpion (Hiroyuki Sanada) e, por isso, parte de uma profecia que o colocava como o salvador da Terra (Earthrealm) contra Outworld, no torneio Mortal Kombat. Assim, ele é treinado e protegido pelos outros escolhidos como representantes do planeta, todos com uma marca de dragão, e guiado pelo deus do trovão e guardião de Earthrealm, Raiden (Tadanobu Asano). Com isso, o enredo do primeiro é uma preparação desse grupo de personagens para o combate decisivo.
Na sequência direta e imediata que é Mortal Kombat 2, nada disso importa e toda a história de Cole Young é jogada no lixo, provavelmente por conta da má recepção do personagem e das críticas ao antecessor. Não há mais a profecia, a marca de escolhido e o treino para desenvolver poderes especiais; as lutas picotadas do anterior têm uma melhora na edição; e os cenários não parecem mais uma série da BBC — ainda que o diretor seja o mesmo da produção de 2021.
A melhor e principal mudança, entretanto, foi escolher o carismático Karl Urban para protagonizar o filme como Johnny Cage. Nessa sequência, o ator decadente é chamado por Sonya Blade (Jessica McNamee) e Raiden para completar o time de cinco lutadores representantes de Earthrealm, desfalcado após a morte de Kung Lao (Max Huang). A adição do personagem de Urban também ajuda a resolver outro problema do primeiro (além da falta de carisma) que era a seriedade da história. Dessa vez, a narrativa consegue equilibrar melodrama e galhofa de uma forma muito mais atrativa e eficiente.
O contraponto para o rei das piadinhas referenciais Johnny Cage é uma outra personagem nova e favorita dos fãs: a princesa Kitana (Adeline Rudolph). A trama mostra o que aconteceu com ela, ainda criança, e sua família em Edenia, como um alerta para Earthrealm, quando as forças de Shao Khan (Martyn Ford), o imperador de Outworld, tomaram o poder após vencer dez torneios Mortal Kombat seguidos. A princesa, então, foi criada como filha adotiva do imperador e desenvolveu uma grande amizade com Jade (Tati Gabrielle), designada como sua segurança pessoal.
Assim, apresentados todos os lutadores dos dois lados, o torneio começa e é excelente. Aqui entram referências a diversos elementos do jogo: os golpes especiais, os fatalities sangrentos, a pose e o enquadramento dos personagens; sendo o ponto alto os cenários das lutas inspirados nos originais da franquia. Tudo é encaixado na história de uma forma que não parece apenas um fanservice forçado e faz sentido para a trama, ainda que a lógica de construção de mundo não seja o foco da narrativa dessa vez. Além disso, cada personagem tem seu momento para brilhar, seja por uma piadinha bem colocada ou em lutas empolgantes.
A combate para o qual Liu Kang é designado, por exemplo, começa com ele sendo transportado para um cenário clássico dos jogos e o com o enquadramento típico do formato: com os personagens colocados, virados um para o outro, em lados opostos da tela. Além disso, aqui o diretor finalmente se aproveita do treinamento prévio dos atores para usar mais de planos abertos e menos cortes, reservando os closes para realçar as emoções de Kang. As outras lutas também usam dessas referências e cada uma tem desafios próprios de cada ambientação (fogo, armadilhas cortantes, ácido, etc) ou um peso emocional diferente em relação aos oponentes escolhidos para cada combatente.
A única questão que ainda fica, talvez um resquício do filme anterior, é a falta de profundidade das relações entre os personagens. A Kitana é uma exceção, por conta de seu passado ser expressamente representado e isso contribuir com as motivações e vínculos afetivos da princesa. Todavia, os outros parecem um grupo de colegas de trabalho sem muita conexão, incluindo os que já tinham alguma narrativa apresentada no primeiro longa. Em decorrência disso, não há senso de perigo e algumas perdas também não são sentidas, criando uma superficialidade que entretém, mas que não pega no coração.
Em geral, dá para esquecer o “Sonic feio” que é o filme de 2021 e aproveitar este como um reinício de uma franquia, a qual, aparentemente, não vai parar por aqui. Gosto muito de como a produção ouviu as críticas e espero que continue melhorando nas próximas sequências. Se tudo der errado, a gente ainda tem a obra-prima de 1995 para revisitar.