Há muito o que falar sobre Miss Violence. É um filme acerca do qual é impossível ficar indiferente após assistir, seja negativamente ou positivamente, e uma nota nunca irá refletir o número de ideias que invadiram minha mente nessa montanha russa de 99 minutos. Acompanhamos a vida de uma família composta por um casal conhecido apenas como Pai/Vovô (Themis Panou) e Mãe/Vovó (Reni Pittaki), as suas filhas Eleni (Eleni Roussinou) e Myrto (Sissy Toumasi) e seus três netos — filhos de Eleni —, chamados de Philippos (Constantinos Athanasiades), Alkmini (Kalliopi Zontanou) e Angeliki (Chloe Bolota), após essa última sorrir para a câmera e pular do prédio em que vivia no seu aniversário de 11 anos, falecendo imediatamente.

Após esse acontecimento, já na primeira cena do longa, fica evidente que há algo de errado nessa família. O choque inicial, porém, não nos prepara para o modo como novos choques virão, visto que estes seguem um caminho bastante peculiar e, na maioria das vezes, pouco explícito. Lentamente, o diretor Alexandros Avranas explora a proporção dos acontecimentos que levaram à perda da criança e as consequências disso e vai traumatizando o espectador cada vez mais.

Acima de tudo, Miss Violence é uma obra de opressão e de ressignificação. No começo, apenas sabemos que tem algo de errado e, ao longo da duração, vamos confirmando nossas hipóteses por meio da atribuição de novos significados a características do ambiente e a atos triviais. Portas fechando, brincadeiras e caronas, coisas perfeitamente normais para nós e para quem olha essa família de fora, tornam cenas aparentemente comuns em trechos de terror absoluto, uma vez que começamos a nos familiarizar com a realidade desse mundo. É um trabalho incrivelmente primoroso de ambientação, que consegue trazer angústia e desespero a todo momento tão somente pela arquitetura da casa e pelas pequenas interações dos personagens com ela.

Do mesmo modo, as dinâmicas interpessoais entre a família são de puro desconforto, e não um desconforto forçado como vemos em muitos “terrores elevados” por aí. Os personagens demonstram um senso insuportável de normalidade a situações asquerosas, e as relações de poder e de opressão se multiplicam silenciosamente em um ciclo interminável e desesperançoso. Se a porta fechando é um símbolo sutil de terror, o ato de agredir outro membro da família no rosto é um símbolo bem explícito da normalização de certas violências em público e na frente das câmeras, as mesmas para as quais Angeliki olha e sorri antes de se suicidar. Há, assim, uma diferenciação entre o espaço público e privado na narrativa.

O espaço público, retratado pelas cenas fora da casa, difunde na família — especialmente entre irmãos e entre mãe e filho — a opressão e a violência do patriarca, de modo a descentralizar a relação de poder, demonstrando como a violência vai além de quem a iniciou, irradiando para Eleni e para as crianças. Por outro lado, no espaço privado essa violência é bem mais concentrada na influência e no poder do pai, o qual exerce um império de controle dos corpos femininos e infantis, utilizando-se de constante vigilância, regramentos autoritários e agressões físicas, tanto aquelas explícitas em tela quanto aquelas apenas sugeridas.

A partir daqui, adentrarei em alguns aspectos do final de Miss Violence, então recomendo que assista antes de continuar lendo.

Contudo, é justamente quando o diretor escolhe se aproximar de vez do espaço privado o momento que torna Miss Violence menos um exemplar de drama perturbador e meticuloso e mais um exploitation qualquer. Numa cena inacabável de estupro coletivo, tudo que foi construído até aquele momento é jogado fora em prol do choque. E pior: um choque completamente sem razão, visto que se encontra bastante próximo da cena da introdução de Alkmini naquele mundo infernal, essa sim capaz de acabar com qualquer um apenas pela sugestão e pela reação posterior da menina.

A cena do estupro, combinada com o trecho em que Myrto explica a sequência inicial do filme e com os minutos finais, dão a sensação de que o diretor tinha uma necessidade de choque a qualquer custo. Entretanto, Miss Violence foi capaz, até aí, de chocar e de traumatizar sem esse caráter. É um filme que não constrói isso em nenhum momento e que engatou em uma direção completamente diferente, somente para se desconstruir no final em uma cena cuja eticidade é questionável e cujas escolhas de filmagem — no caso, enfocar o ato sexual com a adolescente de um modo que beira o voyeurismo e o fetiche, em vez de algum ponto específico ou com o uso de uma câmera desfocada, por exemplo — são inexplicáveis. Esse fim não anula toda a jornada, mas é um ponto que enfraquece muito a obra como uma unidade, visto que a intenção do filme como um todo fica comprometida em nome dessa disrupção forçada.

Entre sugestões e demonstrações desnecessariamente explícitas, Miss Violence mantém-se curioso. Certos símbolos aqui mostrados são inesquecíveis e cenas como a introdução de Alkmini àquele mundo são desoladoras. É uma pena que o filme sacrifique tudo isso pelo choque; porém, é inegável como a construção até ali é suficiente para perturbar e assombrar-nos para sempre.