Poucas vezes o título de um filme definiu tanto minha reação final à obra quanto no caso de Misericórdia. Ao sair da cabine de imprensa, meus pensamentos se resumiam a: “Misericórdia, como o pessoal da Mostra de SP gostou tanto desse troço?” E ao ler os argumentos de alguns colegas, não apenas pude entendê-los como também imaginar o ótimo filme ao qual tinham assistido. Por mais doloroso que seja não conseguir enxergar a beleza de uma obra como outros, também é fascinante como uma mesma projeção pode gerar visões diametralmente opostas, embora igualmente válidas.
Acompanhando Jérémie enquanto este retorna a sua cidade natal no interior francês para o funeral do pai de seu amigo de infância, testemunhamos uma recepção fria e suspeita do povo da cidadezinha de Saint-Martial, à medida que o protagonista passa a adentrar cada vez mais a vida pacata e até apática daqueles moradores. Nesse começo, podemos perceber como o novo filme de Alain Guiraudie trabalha uma decupagem extremamente impessoal e distanciada. Cada interação entre Jérémie e seus conhecidos do passado soa aborrecida justamente porque o visitante parece estar mexendo com uma certa banalidade confortável daquele mundo, algo que inclusive me lembrou o filme Desobediência (Lelio, 2017), ao qual assisti há poucas semanas.
Falando em referências, não demora muito para as conexões não tão ortodoxas entre o protagonista e alguns habitantes acabarem remetendo a uma versão menos política mas igualmente provocativa de Teorema (Pasolini, 1968), em que desejos reprimidos voltam à tona e Jérémie surge como um catalisador do status quo de Saint-Martial, uma espécie de efervescente social daquele microcosmos. E, até aí, o longa de Guiraudie tinha minha total curiosidade e atenção. Tudo parecia instigante, mesmo que a decupagem parecesse sempre desconfortável em dar prosseguimento às relações deveras estranhas entre aqueles personagens.
Mas eis que ocorre um twist…
Um twist violento que aparentava levar a narrativa para um ponto ainda mais interessante. Acontece que esse mesmo twist não acontece apenas na trama (no sentido mais conteudista da palavra), mas também no tom dela. A partir daí, Guiraudie parece tentar articular uma comédia ácida de costumes, de forma a me remeter a alguns filmes dos Irmãos Coen ou de Martin McDonagh, em que um ato terrível gera uma “comédia de erros”. Não satisfeito com isso, ao longo da segunda metade, Guiraudie entra em uma seara humorística digna de besteirois imaturos — o que, a priori, não teria problema nenhum.
Mas e a decupagem? E quanto à linguagem exercida por Guiraudie? Ela praticamente se mantém, com direito a monólogos longos e herméticos, a tentativas infindáveis de explorar a “verdadeira natureza” de Jérémie, a uma condução de câmera ainda distanciada, a um elenco ainda robótico (com exceção da viúva vivida por Catherine Frot). É como se Jérémie tivesse conseguido quebrar o status quo apenas no conteúdo, mas essa quebra não é transmitida para a linguagem da obra, criando um senso de estranheza no pior dos sentidos.
Nenhum direcionamento da reta final de Misericórdia parece contribuir para uma unidade. Muito pelo contrário: forma e conteúdo parecem dois caminhões tentando desviar para caminhos opostos, enquanto são ligados por um cabo de aço que insiste em mantê-los juntos, sem sucesso. Dito isso, o novo filme de Guiraudie conseguiu algo extremamente desafiador: ser um dos filmes com mais crise de identidade do ano de 2024.