Numa contextualização histórica, ao se aprofundar nas Guerras Saxônicas, por exemplo, compreende-se como a transição do paganismo tribal para o cristianismo enquanto um Estado feudal não foi nem um pouco pacífica, muito menos se sustentou de bom grado. Dentro da perspectiva cristã, quando sua crença passa a imperar em lugares onde ela não chegou, tem-se a impressão de que trouxe uma iluminação para esses lugares e que a vida das pessoas melhorou assim que adotaram a nova religião (mesmo que à força). A fé, nesses casos, solidificou-se nesses locais a partir de imposições militares — como batismo forçado, criminalização de ritos tribais e reconfigurações econômicas da terra. O filme Marketa Lazarová (1967, Vláčil) usa esse período extremamente violento como base narrativa, mas focando numa dimensão mais antropológica desses conflitos na Boêmia do século XIII.
A Idade Média nesse filme lembra muito a abordagem que Bergman escolheu em O Sétimo Selo (1957), ao ser representada como uma experiência sensorial e instintiva daqueles tempos, ao invés de apostar numa localização mais arqueológica ou romantizada da era medieval, como se faz em Hollywood. Toda a construção visual do filme traz a atmosfera desse período de forma mais psicológica, através das imagens em preto e branco que transmitem a ideia de um lugar cru, com a enfatização de florestas e ambientes precarizados. A montagem também abre espaço para sensações abstratas e uma certa contemplação de iconografias cristãs — como nas cenas do convento, que transparecem o senso da Igreja se tornando um poder absoluto.
O conflito em si é retratado de maneira ambígua e sem exaltar ou diminuir nenhum lado; afinal, o ser humano se reduz aos seus meros instintos, como fome, excitação, medo, violência e sobrevivência. Tanto faz se a moral vigente é pagã ou cristã: ambas resultam em derramamento de sangue inocente e, na síntese, apenas se troca uma forma de poder por outra. Não se trata de uma história do bem contra o mal, de heróis e vilões, pois todos ali são contraditórios, animalescos, brutais e espirituais.
Essa ambiguidade é condensada em Marketa Lazarová, a filha de Lazar, o líder do clã cristão: uma jovem virgem prometida a um convento que é sequestrada e violentada por Mikoláš, o filho do líder do clã pagão, como vingança por uma traição e recusa de aliança. Como se tal brutalidade já não fosse chocante o suficiente, começa a se criar uma relação proibida de paixão entre o agressor e a vítima, e ela passa a viver entre os pagãos.
Quando retorna para seu lar, é rejeitada por todos, inclusive pelo próprio convento, por se misturar com o lado inimigo e se tornar pecaminosa. E, mesmo orando para Deus por perdão por sua “profanidade”, Marketa ainda procura se despedir de Mikoláš. A personagem representa uma iconografia confusa e incerta sobre sua natureza. Não se sabe se ela é santa, mártir, livre ou uma vítima. O filme não responde a essas perguntas e fica por isso, pois a incerteza das coisas é o grande motor do longa.