Para compreender melhor a narrativa de Ladrões de Bicicleta e o Neorrealismo Italiano como um todo, é importante situar brevemente dois fatores da Itália após 1945: a economia e a conjuntura política, que ampliaram desigualdades já existentes. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o país buscava se reconstruir dos danos acumulados ao longo do conflito. Com o apoio dos EUA, a Itália passou por um período de crescimento econômico que se estendeu por um bom tempo. O Plano Marshall contribuiu de forma significativa para a recuperação de indústrias básicas e para o restabelecimento da produção industrial aos níveis pré-guerra até 1948, ano de lançamento do filme.
Porém, embora o Plano Marshall tivesse como objetivo “reabilitar” as economias europeias e criar condições de estabilidade, no âmbito social a situação era uma tragédia. A reconstrução foi marcada por desorganização e diversas barreiras estruturais. O desemprego atingiu níveis altíssimos, com cerca de 4 milhões de pessoas procurando trabalho, parte da capacidade produtiva inativa, instabilidade impulsionada pela inflação, desvalorização monetária e forte dependência externa. No aspecto político, o país era profundamente influenciado pelas tensões da Guerra Fria: a aprovação da Constituição republicana, o domínio do partido Democracia Cristã e o clima de polarização generalizada criavam o medo de perder o apoio norte-americano, que poderia ser retirado caso forças socialistas ou comunistas chegassem ao poder — o que também poderia causar conflitos com o sul-conservador e com o Vaticano.
No meio de todo esse marasmo, surge no campo artístico o Neorrealismo Italiano, um movimento cinematográfico nos anos 1940 e início de 1950 que buscava falar dos eventos antes da guerra e os problemas socioeconômicos de durante e depois do conflito. Rejeitando a glamourização e o entretenimento escapista, o movimento buscava entrelaçar sua linguagem nas raízes do mundo cotidiano, oferecendo destaque para a população e as classes baixas — que nunca tiveram atenção no cinema — de forma que não só estética, mas também base política e ideológica. Dentre diversos clássicos como Obsessão (Visconti, 1943) Roma, Cidade Aberta (Rossellini, 1945), Vítimas da Tormenta (De Sica, 1946), o filme mais icônico desse movimento é Ladrões de Bicicleta (De Sica, 1948).
De maneira direta, o filme fala de Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um homem de classe baixa que consegue uma vaga de emprego como colador de cartazes, mas que só seria contratado se conseguisse uma bicicleta. Então, ele vende alguns lençois de casa para poder comprar uma. Porém, no seu primeiro dia, tem a bicicleta roubada por um ladrão, e então, ele parte com seu filho Bruno (Enzo Staiola) por vários cantos de Roma para tentar recuperar sua bicicleta de todas as formas possíveis ou ficar sem emprego e miserável.
De acordo com Vittorio De Sica, diretor do filme: “Meu propósito, eu dizia, é encontrar o elemento de drama nas situações cotidianas, o maravilhoso nas notícias, na verdade, nas notícias locais, consideradas pela maioria das pessoas como materiais desgastados.” É um retrato da desigualdade através das perspectivas. A banalização das situações daquela realidade no dia a dia das pessoas de classe baixa são bem visíveis em diferentes formas e contextos, como na maneira que certas pessoas (por exemplo, jornalistas e policiais) tratam com desdém o roubo pois “era só uma bicicleta”. Isso mostra como que, para alguém que não está inserido nas condições de alguém como Antonio, aquilo era algo fútil demais para que uma medida adequada fosse tomada. O filme evidencia fortemente o valor que essa bicicleta tem para ele, afinal é seu meio de acesso ao trabalho. Sem ela, ele volta pra estaca zero e, levando em conta o alto desemprego daquele período, ele possivelmente não teria muitas chances de conseguir outro trabalho, pois como Antonio diz para seu filho Bruno em uma determinada cena: “O que mais pode-se querer? Eu deveria simplesmente renunciar a tudo isso? Não quero renunciar a nada. Agora entende porque temos que encontrá-la? Porque caso contrário, não comemos”.
Outro aspecto que reforça os efeitos desiguais da reconstrução da Itália é a classe média, que representa o lado que se beneficiou com as políticas econômicas do pós-Segunda Guerra. Frequentando restaurantes, jogos de futebol e lazeres de domingo, essa realidade, oposta a de Antonio, indica como as classes baixas foram esquecidas e afetadas de forma contrária àqueles que desfrutam dos confortos que os livram das consequências da guerra, podendo viver apenas trabalhando e aproveitando o final de semana. Desse jeito, o contraste de realidades mostra as diferentes maneiras pelas quais aqueles tempos predominaram na Itália, escolhendo destacar os que mais foram prejudicados.
A grande força do filme reside na crítica como forma social, a começar pelo seu estilo realista. O crítico e teórico André Bazin defende o realismo no cinema como uma preservação do segmento de tempo e espaço, sem alternância de sentidos por meio da montagem — o que era o oposto do que se fazia no cinema soviético, onde a montagem era fortemente valorizada como uma construção de sentidos através do choque entre os planos, criando um discurso fechado, pensado como uma linguagem ideológica e estética. O Neorrealismo ia na contramão dos soviéticos e abdicava de qualquer estilização marcante, optando por enquadramentos de câmera mais comuns e por uma narrativa que não afastasse o espectador do real puro e simples e se sustentasse em uma narrativa de relato.
No caso do movimento, isso era uma escolha profundamente política, que se baseava na ideia de que os conflitos de classe apareceriam na tela de forma verdadeira só de apontar a câmera para os lugares certos, pois a força dramática não vinha de invenções narrativas, mas do próprio contexto social da Itália retratado no filme e que move toda a história. O interesse pela vida dos mais pobres, o foco nos espaços precarizados e o elenco majoritariamente composto por atores não profissionais demonstram uma valorização do cotidiano da classe baixa de Roma por meio da mise-en-scène, em oposição às ideias do cinema soviético, onde a edição parecia deixar o povo em segundo plano para destacar o manifesto político.
A humanidade do filme é muito marcada por uma característica bem forte, o que o torna ainda mais trágico: o olhar de Bruno, filho de Antonio. Ele representa esse olhar mais genuíno e direto que o Neorrealismo Italiano tanto buscava em seus filmes. Por se tratar disso, combinado com a inocência de uma criança, ele também representa o espectador que ainda está tentando compreender aquela decadência. Essa inocência vai sendo gradativamente retirada dele conforme acompanha o pai durante a busca pela bicicleta roubada. Bruno é introduzido, aos poucos, às dificuldades de um adulto inserido no ciclo social em que vive. Ao mesmo tempo, vê seu pai deixar de ser uma figura heroica e se transformar em uma figura trágica e humilhada. Assim, aprende que situações extremas podem levar boas pessoas a tomarem atitudes desprezíveis.
No entanto, como o filme rejeita uma lente moralista e apresenta essas situações sob uma lógica materialista, a ideia central é que um sistema baseado na competitividade entre as pessoas cria vencedores e perdedores sem qualquer consideração. A pior parte de tudo é que, além de Bruno ter sua infância destruída, o filme indica que tudo o que ele presenciou é uma realidade que também pode acontecer com ele no futuro, sem muita possibilidade de escapatória, onde ele também pode viver na estaca zero, tal qual seu próprio pai.
FONTES USADAS:
SHARMA, Manoj. Neorealism in Italian Cinema: 1942–55. In: Proceedings of the Indian History Congress, v. 69, p. 952–964, 2008. Disponível em: https://psi329.cankaya.edu.tr/uploads/files/Sharma%2C%20Neorealism%20in%20Italian%20Cinema%20%282008%29.pdf.
ITALY. The economic miracle. In: Encyclopaedia Britannica. Disponível em:https://www.britannica.com/place/Italy/The-economic-miracle
ITALY. Italy since 1945. In: Encyclopaedia Britannica. Disponível em:https://www.britannica.com/place/Italy/Italy-since-1945
CAPANNA, Alberto. Economic problems and reconstruction in Italy: II. International Labour Review, Genebra: International Labour Office, v. 64, n. 1, p. 24–60, 1951. Disponível em: https://labordoc.ilo.org/discovery/fulldisplay/alma995165512102676/41ILO_INST:41ILO_V2
MCKIBBIN, Tony. Bicycle Thieves. Disponível em:https://tonymckibbin.com/article/bicycle-thieves.html