Matheus Marchetti é um diretor conhecido dentro do nicho do cinema independente brasileiro por seus curtas que trazem temáticas queer com uma roupagem de fantasia e suspense, como o musical Bosque dos Sonâmbulos (2017). O seu segundo longa-metragem, Labirinto dos Garotos Perdidos (2026), segue pelo mesmo caminho.

Surpreendentemente, o filme foi feito quase sem orçamento, contando com a vontade da equipe de dedicar seu tempo livre à arte. A estrutura episódica da trama facilitou as filmagens, que puderam ser realizadas em fins de semana espaçados, de acordo com a disponibilidade dos envolvidos, sem prejudicar a continuidade.

O filme conta a história de um garoto gay do interior que chega à cidade de São Paulo para prestar vestibular e conhecer seu crush virtual. Após uma decepção com o tal crush, resolve aproveitar a noite livre para explorar sua sexualidade, procurando outros homens em aplicativos — e cada encontro é mais esquisito que o anterior. Tudo isso enquanto há um serial killer de jovens gays à solta na cidade.

A primeira sequência do filme serve para dar o tom de suspense, mostrando como o tal assassino supostamente age. Começa com um homem entrando em uma casa, que entendemos ser o local de encontro combinado no aplicativo. Há uma cena de sexo, e, depois, o tal homem, vagando pela sala, encontra um piano e se senta para tocar. Durante sua música vemos o vulto de alguém através de um reflexo borrado, uma tesoura sendo erguida em plano detalhe, o sangue vermelho vivo escorrendo pelo peito do homem e seu rosto morto caído sobre as teclas do piano. Tudo é trabalhado através de cortes bem posicionados e uma iluminação esverdeada que traz algo de sobrenatural e onírico. Já nesse início, também, é deixada no ar a ambiguidade quando a isso realmente ter acontecido ou ter sido apenas um pesadelo do protagonista.

A estética muito peculiar do diretor, inspirada em filmes como Suspiria (1977), de Dario Argento, traz tanto o suspense quanto a sensualidade através de imagens belas e desconfortáveis; o escuro aparece em contraste com as cores fortes das luzes (muito azul, verde e rosa), que se tornam mais marcantes à medida que a história se distancia da realidade.

Por ter sido inicialmente pensado como uma comédia, o longa também traz diversos elementos de humor nas situações absurdas em que o protagonista acaba se encontrando. A melhor piada visual envolve o duplo sentido do verbo “comer”, um microondas e o eufemismo “pepino” para outra coisa. Porém, ao mesmo tempo em que o humor está sempre bem presente, há esse elemento de desconforto que permeia toda a história, que vem não apenas da possibilidade palpável de assassinato como também de um efeito de “vale da estranheza”. Isso acontece pela forma como os personagens interagem, que parte da casualidade para se tornar absurdo — às vezes com exageros teatrais, que são intensificados pelas escolhas de luz —; é a sensação de se deparar com algo que parece real e falso ao mesmo tempo, como acontece em sonhos.

Matheus Marchetti também fez escolhas muito boas de locações na cidade de São Paulo que enriquecem o filme. Uma delas é um aquário, que já traz naturalmente a cor azul que o diretor gosta de usar, além de reforçar visualmente que o protagonista é um “peixe fora d’água” naquele lugar. Outra é a exposição Terror no Cinema, que aconteceu no Museu da Imagem e Som (MIS), e serve como local de um dos encontros que o personagem tem. Além da exposição por si só já trazer cenários macabros, contornando o orçamento de produção que o filme definitivamente não tinha, toda a sequência que se passa ali acaba reforçando a ideia do perigo pelo qual o protagonista passa, ao contrapor o terror com o romance inocente daquele encontro.

Marchetti certamente tem um gosto pessoal e uma visão muito bem estabelecida, que enriquece demais o cenário do cinema brasileiro. Fica aqui minha recomendação a todos que se interessem por sua estética e temas que vejam não apenas Labirinto dos Garotos Perdidos, mas também os curtas disponíveis no canal do YouTube do diretor.