O primeiro plano de La Visiteuse é o de uma mulher deitada, dormindo no sofá de sua casa. Ao escutar o barulho de sua campainha, ela acorda e vai atender quem quer que esteja à sua espera.
Então, sua amiga entra em cena contando sobre seu término recente e, já nesses poucos minutos iniciais, é possível perceber como a estrutura formal da obra busca tornar essa personagem a protagonista. Quando ela anda de um lugar para outro na sala, a câmera a acompanha — algo perceptível logo na sua primeira aparição, em que, assim que a amiga da dona da casa vivida por Françoise Fabian adentra no ambiente, a câmera a segue corredor adentro. Na cena seguinte, ela não começa enquadrada mas, logo quando a personagem cruza o espaço filmado para a câmera, tudo acontece de novo.
Essa repetição ocupa os próximos minutos. A visitante se move e é “acompanhada” pela forma fílmica. É particularmente interessante como, durante os momentos em que a protagonista desabafa, o diretor opta por filmá-la em plano-sequência; porém, quando a anfitriã intervém com algum pensamento ou fala, o plano acaba. Além de interromper a outra personagem tematicamente, intercalando arbitrariamente as falas de ambas as mulheres, ela também a interrompe formalmente. A lógica interna do plano se esvai conjuntamente à mínima tentativa de uma delas tentar contribuir de alguma forma com a conversa.
A personagem interpretada por Fabian, com angústias maiores do que as da protagonista, merece ser o centro das atenções. Ela passou por momentos terríveis e precisa de todo o espaço (seja ele temático ou formal) para expressar as suas dores.
No entanto, mais à frente, essa dinâmica de foco começa a mudar. A dona da casa, silenciada pela própria imagem, discorre sobre a desilusão no amor, decorrente da tristeza causada por um término de relacionamento. Aos poucos, a mise-en-scène, que antes estava centrada apenas na figura da visitante, se desloca para a anfitriã. O plano foca em seu rosto, com um zoom lento, enquanto ela vai falando mais sobre si mesma e verbalizando sentimentos que pareciam estar guardados há tempos, mostra que ela já viveu essa história antes — e que, assim como a sua companheira, olha para esse passado com melancolia. Ela que, antes, era o oráculo de sua visitante, tentando aconselhá-la à respeito da superação do término, mostra-se como alguém com os mesmos problemas. Quando isso acontece, o protagonismo muda; se Fabian se move, a câmera a acompanha.
Esse é o ápice do curta. Aqui, consolida-se a ideia de uma fluidez da mise-en-scène, em que a montagem e os movimentos da câmera se adaptam às personagens e ao conhecimento que o espectador tem delas. No final, quando a amiga da nova protagonista a deixa sozinha em sua casa, esta põe uma música no seu toca discos e vai para a janela. É ali que se vê, após tanto tempo, ela chorando.
Talvez o som dessa campainha não a tenha despertado somente do seu sono, como também de um romance passado findo de forma forçada.