ESTE TEXTO PODE CONTER LEVES SPOILERS!!!
De todas as minhas experiências com documentários, as mais interessantes acabaram sendo aquelas que questionavam a realidade através do pretenso realismo do formato e a noção equivocada de que o documentário retrata a realidade como ela é, sem ornamentos, sem adulterações, sem ficção. Alguns cineastas usaram algumas de suas obras para pôr tal noção em xeque, especialmente com o surgimento dos mockumentaries, que tinham o objetivo de satirizar ou parodiar o formato, e dos pseudo-documentários, que juntavam ficção e realidade para criar um efeito dramático de questionamento da representação cinematográfica. E é justamente nessa segunda definição que o excelente Kamikaze Hearts se encaixa.
Situando-se no cenário pornográfico em meados dos anos 1980, o filme aborda o relacionamento amoroso entre duas atrizes da indústria durante a produção de uma paródia pornô da ópera Carmen (1875), de Georges Bizet. Trabalhando com duas atrizes pornô reais — Sharon Mitchell e Tigr Mennett, esta última também escrevendo o longa — interpretando versões de si mesmas, a diretora Juliet Bashore usa o microcosmo da relação de ambas para explorar certas características nocivas da indústria, especialmente no tratamento feminino, prática extremamente incomum na Era de Ouro da pornografia.
Com isso, não quero dizer que o discurso da realizadora parte para um moralismo raso sobre o tema; lembra mais o comentário que Ninja Thyberg fez no recente Pleasure (2021), mais um filme que usava profissionais da própria indústria no elenco. Simulações de estupro, produtores/diretores/atores se aproveitando dos corpos das atrizes, todo o impacto psicológico desse universo nas mulheres, a culminância no vício em drogas e, claro, como tudo isso afeta a narrativa central entre Mitch e Tigr.
Porém, eu diria que esse é o complemento da proposta de Kamikaze Hearts, inevitável pela sua temática. Porque, ao meu ver, o foco aqui é mesmo a figura de Mitch como síntese dessa separação quase imperceptível entre realidade e ficção, tornando-se quase uma femme fatale de filme noir no processo. Enquanto isso, Tigr torna-se observadora dessa “farsa”, uma representação do público na tentativa de pôr em xeque a representação da realidade que, nesse caso, é sua parceira. Ao surgir constantemente como uma diva expansiva, burlesca e rebelde, até mesmo quando as câmeras pornográficas não estão sobre ela, Mitch é uma personagem que constantemente se contradiz na hora de explicar a forma como encarna suas personagens e a separação de fato e ficção em sua própria mente.
Sua construção como uma figura ambígua é eficiente não apenas para essa ideia que a diretora exercita de questionar o que é o real, mas também como catalisadora do conflito com Tigr, que jamais sabe se sua parceira realmente a ama e a deseja ou se está apenas atuando por todo o tempo. E o fato de as duas terem se apaixonado durante uma filmagem é outra informação que gera impacto em sua dúvida, culminando em alguns dos momentos mais melancólicos e surpreendentes do projeto em seus 15 minutos finais.
O momento em que ambas parecem usar heroína em frente às câmeras (mais um questionamento do real aí) como forma de lidarem com seus problemas de relacionamento é fortíssimo, e ainda é potencializado pelo depoimento final de Tigr que, nua e fumando um cigarro na noite escura, conclui esse “neo-noir documental” de forma lúgubre e pessimista ao som da ópera de Bizet. Assim, Kamikaze Hearts se revela uma joia um pouco perdida na vasta filmografia pop dos anos 1980 e espero que, com esse texto, eu influencie mais gente a conhecer esse grande filme de Juliet Bashore.