Kiyoshi Kurosawa é um dos diretores mais aclamados do cinema japonês recente. Embora possua uma extensa filmografia em diversos gêneros, sua maior marca foi deixada pelos filmes de terror do final dos anos 1990 e começo dos 2000. Em Kairo (2001) — conhecido nos Estados Unidos como Pulse —, ele entrega uma obra que retrata o afastamento social na modernidade, usando como pano de fundo o estabelecimento da tecnologia.
Filmado em 35mm, Kurosawa faz um uso marcante de uma fotografia granulada, desbotada e propositalmente mal iluminada. Essa escolha técnica não é gratuita: ela cria um aspecto fantasmagórico e decadente, como se a própria imagem estivesse apodrecendo diante dos nossos olhos.
A trama acompanha jovens que acessam um site sobrenatural, que funciona como um canal de vídeo com pessoas que parecem mortas. Habitando quartos escuros e composições visuais “poluídas” por entulho e sombras, o diretor estiliza essas aparições através de efeitos de distorção que transformam os fantasmas em “borrões” assustadores, construindo um senso forte de absurdo.
Kairo trabalha a estranheza absoluta para construir o medo, sendo a cena da mulher no depósito abandonado um baita exemplo disso. A maneira como ela caminha em direção ao protagonista — um movimento “quebrado”, que alterna entre o lento e o rápido de forma mecânica — é uma das coisas mais horripilantes do gênero. Não é um movimento esperado; é um movimento “errado”, e isso causa um desconforto quase físico em quem assiste.
Após o horrível contato com esses seres, as vítimas perdem o sentido da vida de um segundo para o outro. É como se toda a perspectiva e humanidade fossem sugadas, deixando apenas uma carcaça apática, culminando em suicídios desde o começo do filme. O “mal” de Kairo não é a tecnologia em si, mas o fato de ela implicar em fechar os indivíduos em caixas separadas e isoladas o tempo inteiro — todos conectados, mas sem conexão. A simbologia das pessoas que morrem e se tornam manchas pretas na parede é poderosíssima.
O filme trabalha sempre em cenários abertos, mas vazios e cinzas. Os personagens estão constantemente sozinhos em lugares isolados, frisando um distanciamento muito real de tudo e todos.
Culmina em um caos generalizado, no qual parece que o vazio tomou conta do mundo: fogo, aviões caindo e uma Tóquio completamente devastada encerram um dos filmes de terror mais assustadores e atuais de todos os tempos. Um marco do cinema japonês e mundial!