Sim, estamos no décimo filme de uma das franquias mais rentáveis da história do terror! Isso obviamente não me surpreende, mas como “completista” irrecuperável, me senti compelido a dar uma segunda chance para toda a franquia Jogos Mortais antes de assistir a este novo filme. A experiência não foi das melhores, embora o primeiro filme de 2004 dirigido por James Wan se mantenha um jovem clássico absoluto. Fato é que, a partir do segundo capítulo de 2005, a franquia protagonizada por Jigsaw entrou em um modelo fordista de produção padronizada, algo perceptível pelos lançamentos dos sete primeiros longas em anos consecutivos.

Depois de tentativas de modernização que falharam de maneira abismal com Jigsaw (Spierig, 2017) e Espiral (Bousman, 2021), Jogos Mortais X se revela mais um produto dessa linha de produção padronizada. Claro que, considerando seus antecessores, acaba não se enquadrando nos piores por via de comparação. Isso muito provavelmente se deve à direção de Kevin Greutert, editor da série, que em sua passagem com Jogos Mortais VI (2009), havia oferecido maior esforço na abordagem frontal do terror em meio a capítulos que pareciam ter vergonha de seu status no gênero e se esforçavam para serem percebidos como thrillers sérios e inteligentes.

Logo, Greutert foca bastante na violência extrema que popularizou a franquia e nas armadilhas mirabolantes criadas por Jigsaw, gerando até certas situações inéditas na franquia. Porém, a parte dramática é tratada com um severo desleixo. E isso não representaria problema nenhum – poderia até ser configurado como mérito – se um longo tempo da duração não fosse dedicado ao drama de John Kramer em busca de um tratamento para seu câncer. E por mais que esses “trechos” dramáticos sejam aqui e ali tratados com certa ironia (como quando Kramer se refere ao seu “hobby”), na maior parte do tempo Greutert vai revelando a finalidade de transformar seu vilão de longa data em um anti-herói, em um vigilante, um justiceiro que apenas “pesa a mão” em suas punições.

Está certo que, no sexto capítulo, já fazia isso ao colocar Jigsaw se contrapondo a um agente de saúde egoísta e hipócrita, mas aqui até mesmo a performance do sempre assustador Tobin Bell torna-se mais mansa, mais vitimista. Claro que não podemos dispensar a idade já avançada do ator como possível fator que contribui para essa impressão, mas acho difícil se limitar a isso já que Greutert, os produtores e roteiristas fazem questão de criar uma nova vilã mais fria e cruel do que John Kramer, gerando uma trama maniqueísta e de certa forma punitivista a partir de inúmeras falsas equivalências.

Dito isso, Jogos Mortais X é mais um capítulo da franquia iniciada de forma extremamente interessante por James Wan que arrega ao se assumir como um horror frontal a partir das perversões de um homicida inveterado. Mais uma vez, recorre ao drama artificial e a uma mensagem de natureza absolutamente questionável para justificar a existência de um décimo capítulo da franquia. E a julgar pelo desfecho, não vamos parar por aqui… infelizmente!