A comédia de ação indiana Jigarthanda Double X é a prequela de Jigarthanda (2014) que conta a história do pai do protagonista do primeiro filme na década de 1970. O gângster fã de Clint Eastwood Alliyus “Alliyan” Caesar (Raghava Lawrence) quer contratar um diretor para filmar sua vida de maneira apoteótica e transformar em um longa. Para esta tarefa, ele acaba optando por um policial disfarçado, Kirubakaran “Kiruban” / Ray Dasan (S. J. Suryah), que diz ter sido assistente de Satyajit Ray, o diretor indiano icônico. No entanto, a intenção de Kiruban é matar Caesar para que possa ganhar liberdade da pena que cumpre na cadeia por um crime que não cometeu.
O primeiro ato do filme demora bastante — quase a metade do tempo de duração — para estabelecer todos os personagens, seus passados e motivações, antes de entrar de verdade no escopo e na essência da história. Infelizmente, portanto, o início se arrasta um pouco além do que deveria, empilhando nomes de personagens e lugares, com algumas cenas que são dispensáveis para a trama principal e também não servem para entreter. Por outro lado, uma vez que os personagens e a trama estão estabelecidos começa o verdadeiro show de ação que é Jigarthanda Double X2023.
Em determinado momento, Caesar percebe que seu povo nativo, que vive em uma área de floresta, está sendo subjugado pela polícia local e, além disso, um caçador está dizimando os elefantes, que são sagrados na região. Ele, então, inspirado nos personagens de Clint Eastwood, com a experiência em gangues na cidade grande e o imenso poder da filmadora nas mãos de Kiruban — que ainda está registrando a sua vida — toma para si a responsabilidade de expor a corrupção dos dominantes e libertar aquelas pessoas para construir uma vida melhor para o vilarejo.
É aí que o filme assume a gravidade dos temas abordados e lapida o discurso sobre o cinema – por extensão a arte – ser uma arma muito mais valiosa do que as armas de fogo contra a repressão. Kiruban capta a crueldade e as mentiras dos políticos e policiais da região, bem como a beleza e a resiliência do povo do vilarejo. Em uma cena fantástica que envolve tambores, torna-se evidente a força que tem a união de uma comunidade que não tem mais nada a perder com uma bela fotografia que capta os pontos de vista diferentes em acontecimentos que duram segundos. O final é catártico e assinala o discurso do filme sobre arte. Muito mais profundo do que parecia à primeira vista, com a briga de gangues e policiais… E, da mesma maneira que Clint Eastwood em seus filmes, Caesar se transforma em um herói relutante e inspirador.