Invocação do Mal, dirigido por James Wan, traz às telonas a história do caso real da família Perron. Após se mudarem para uma casa isolada, o casal e seus cinco filhos começam a sofrer com uma entidade sobrenatural. Então, buscam a ajuda dos famosos investigadores paranormais Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga).
O cinema de terror da década de 2010 foi extremamente marcado pelo horror sobrenatural, e Invocação do Mal provavelmente foi o grande catalisador disso. É necessário ter vivido 2013 para entender a febre que esse filme foi — eu mesmo assisti umas 3 vezes no cinema. Não apenas lotava sessões, mas também reacendia o interesse popular por espíritos, possessões e casas assombradas; elementos que pareciam já gastos no mainstream — com exceção, talvez, de Atividade Paranormal (Peli, 2007). A febre não foi à toa; pelo contrário, o delírio possuía nome, sobrenome e nacionalidade asiática: James Wan.
Curioso notar como o filme abriu espaço para um verdadeiro ecossistema de derivados e imitadores. Alguns buscaram expandir o “universo Warren” — ou “Invocaverso” —, outros apenas replicaram os maneirismos de Wan. Para não ser injusto, alguns tentaram uma abordagem própria; em minoria, cedendo espaço para um mercado Hollywoodiano que inundou as salas de cinema com tentativas fordistas de replicar um novo fenômeno paranormal. Mas a maioria carece justamente do que fazia Invocação do Mal funcionar: o equilíbrio entre espetáculo de terror e artesania. Olhando em retrospecto, continua sendo um dos melhores da década — e os simulacros, apenas ecos desbotados.
Muito disso surge justamente do fato de Wan possuir um conhecimento muito palpável sobre as minúcias e contradições do gênero (e do subgênero). A começar, nesse estilo de filme — que eu carinhosamente chamo de “terror católico” — aceitar a existência do mal é, também, aceitar a existência do bem. Um universo que só funciona plenamente quando há uma aceitação tácita da cosmologia cristã. Se há demônios, há Deus; se há possessão, há salvação possível. Esse equilíbrio entre forças dá ao mal não apenas um antagonista, mas uma lógica, um contraponto inevitável.
Nessa ótica, Wan entende que não há protagonista melhor do que o servo de Deus; a personificação do heroísmo em um mundo onde bem e mal são reais. Se em vários terrores sobrenaturais os protagonistas são as vítimas, e os padres, exorcistas e médiuns ficam relegados à personagens secundários, Wan vira essa chave e transforma-os no ponto central do filme. Os representantes do bem deixam de ser figuras de apoio que entram apenas para “resolver a trama”. Invocação do Mal desloca o eixo narrativo: não mais vítimas indefesas que esperam pela intervenção, mas heróis cuja fé e vocação moldam a lógica do filme. Isso não só potencializa o simbolismo da batalha espiritual, como também reconfigura a própria gramática do subgênero, dando aos filmes uma estrutura quase de épico religioso.
E justamente aí reside a força do filme: Wan não trata o mal como um truque de sugestão ou como uma presença que se insinua apenas nas entrelinhas. Ele o encara de frente, dando corpo, textura e densidade. É um filme que não tem medo de olhar o mal face à face. Seja o mal em uma forma manifestada ou mais metafísica. Quando a bruxa surge, não é um vulto fugidio nos cantos da tela, mas uma figura centralizada, inevitável, que encara o espectador de volta; quando não assume forma física, sua presença se materializa na própria linguagem visual: uma escuridão espessa e opressiva que parece devorar os espaços, planos que se tornam claustrofóbicos, sombras que avançam como um personagem. Assim, não há escapatórias, sempre há alguma espécie de malevolência sendo mostrada — o filme nos lembra constantemente que o mal não só existe, como se impõe, seja na carne, seja no vazio.
De certo modo, até mesmo a câmera assume esse embate entre o bem e o mal. Quando o bem predomina — quando há a ilusão de segurança e serenidade — o movimento é irregular, quase corporal, criando a sensação de cotidiano em movimento; ela oscila, treme, se movimenta, respira, é livre e orgânica. Mas quando a presença do mal se instala, o dispositivo se transfigura. A câmera adquire uma qualidade incorpórea, deslizando por trilhos e flutuando pelo cenário — um fantasma com uma calma quase predatória, explorando cada recanto da casa à procura do ponto onde se manifestará a seguir.
É inevitável pensar na genealogia dessas câmeras espectrais, sobretudo em Sam Raimi em Evil Dead. Observar os dois revela um contraste fundamental para perceber como cada cineasta traduz o “espírito” da câmera. Raimi opera no selvagem, no grotesco, numa câmera que corre como uma fera indomada; o dispositivo é tomado por uma fúria cinética que corre sem direção e colide com o espaço, possuído por um mal visceral, irracional, caótico e, até mesmo, orgânico. Já a assombração de Wan conduz a câmera de outra forma: mais espectral e menos viva. É uma linguagem marcada por frieza e cálculo; seu dispositivo fílmico não corre, mas observa, ronda e prepara o bote. Não há a urgência selvagem, mas sutileza e sagacidade. Trata-se de um mal paciente, que não se precipita — ele manipula, observa e arquiteta.
A diferença entre os dois estilos, no fundo, é a diferença entre um mal primitivo e intempestivo e um mal racional e paciente — e isso reverbera na própria experiência do espectador, que se sente menos em uma perseguição e mais em uma emboscada constante. O olhar que flutua em Invocação do Mal é o de uma inteligência sombria, que age apenas quando pode produzir a consequência mais devastadora.
Essa característica formal — uma decupagem regida por um mal racional e paciente — é algo que reverbera até mesmo naquilo que costuma ser o recurso mais imediato do horror: o jumpscare (os famosos “sustos”). O longa parece ser bem conservador neles; não que eles não existam — todo bom filme de terror tem bons sustos —, mas eles obedecem à mesma lógica predatória que orienta a câmera. Muitos se insinuam apenas para não acontecer. Ou, às vezes, até acontecem, mas são atrasados; se adiam além do ponto de expectativa, obrigando o espectador a acreditar que nada virá, e então, aparecem com uma força ainda mais incisiva. O susto, nessa lógica, é armadilha. Assim como o mal que estrutura o filme, os sustos são predadores que esperam o melhor momento para atacar; e sabem quando a recusa é mais eficaz que a presença.
Como dito no início do texto, Wan marcou uma geração do horror hollywoodiano com seu filme. Não só deu início a um universo expandido que corrobora até hoje, em 2025, mas também iniciou uma onda de busca comercial por um filme parecido. As cópias persistiram na superfície — nos tropos, na fórmula comercial — e, por isso, perderam o vigor. O filme de Wan permanece porque não é apenas uma narrativa sobre o sobrenatural: é a encenação meticulosa de um mal que pensa, que calcula, e que transforma até mesmo a gramática do horror em um campo de sua manipulação.