Uma sátira, diferentemente de uma narrativa parodiada, não necessariamente busca gerar um efeito cômico, por muitas vezes pode chegar a ser violenta e visceral, e por muitas vezes trágica. O longa de Elio Petri, Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, não gera momentos de humor, pelo menos não da maneira tradicional, onde o diretor se utiliza do tom pesado de sua história e dos absurdismos da trama para gerar esse tom ridículo que circunda os acontecimentos que a narrativa apresenta, como de costume, uma crítica política e social.
Diante de uma sociedade dividida entre reacionários e revolucionários, o personagem de Gian Volanté busca uma prova cabal de sua superioridade à lei, a persona um indivíduo como qualquer outro que está acima de qualquer suspeita de um crime hediondo. Sua moral conturbada e sua paranoia em relação ao senso de dever perante a justiça que tanto serve com veemência o impedem de se safar diretamente do ato criminoso que realizou, mesmo que indiretamente ele busque se incriminar em diversos momentos, a polícia e os oficiais da lei que o rodeiam parecem apenas ignorar as evidências claras ao redor que apontam O Doutor como o autor do crime.
Mesmo em um cenário que vai contra todas as intuições estabelecidas pelos polícias, eles preferem ficar suas suspeitas em pequenos indivíduos pertencentes a grupos minoritários, o ex marido homossexual da vítima, o vizinho comunista que serve como a única testemunha do ocorrido, envolvido em manifestações pesadas em prol da ideologia socialista. Quando se encontram diante um do outro, o revolucionário revela sua suspeita para O Doutor, escolhendo não acusá-lo para a polícia.
“Um criminoso liderando a repressão, isso é perfeito”
Mesmo sabendo da informação crucial que condenaria o homem, e ainda contando com sua suplicação, a noção que um violador da lei está a frente de uma força que reprime a luta proletária se torna mais importante que a verdade. Nesse meio os mecanismos corruptos do poder se revelam, mesmo que a verdade seja clara, não é mais importante que as ideologias combativas que tais agentes da lei possuem, se preocupando mais com manifestações artísticas para os líderes comunistas da história do que com um crime hediondo ocorrido em suas vigilâncias.
O Doutor possui suas tendências fascistas e desaprova qualquer valor individual sobre as imagens de autoridade, contribuindo para sua paranoia ao longo da história. Ele quer se provar acima da lei, mas quando percebe que sua posição lhe garante quase que uma imunidade moral em relação à investigação, sua moral conturbada fala mais alto, ao ponto dele mesmo aos poucos ir se entregando, mesmo que todos ignorem esse fato.
“Você matou uma pessoa inútil, alguém teria me matado, eu estava destinada a morrer assim”
A fala de Augusta, como o espectro que surge no sonho do Doutor, reflete em poucas palavras a sociedade italiana dos anos 60, hipocrisia dos detentores do poder, a corrupção institucional que atende os interesses do capitalismo imperialista. A perseguição política e a consolidação de um posição de opressão por parte da classe burguesa, sobrepõe a humanidade, e a verdadeira justiça.