Boots Riley é um caso bastante curioso entre os atuais diretores de Hollywood. Abertamente marxista e radicalmente revolucionário, ele se tornou famoso quando liderou o grupo de hip-hop The Coup, conhecido pelas letras que exaltavam o sindicalismo criticavam o capitalismo. Nesse contexto, é curioso observar como, ao se transferir para o cinema, Riley não se ausentou de suas visões políticas e, além disso, rejeitou a linguagem cinematográfica moderna que enfatiza elementos realistas, optando por uma identidade linguística absurdista e surrealista, satirizando a sociedade americana no processo.

Seu longa de estreia, a comédia Desculpe Te Incomodar, é um longa particularmente peculiar quando falamos sobre forma. A maneira como o diretor lida com seus temas procura mostrar que o próprio capitalismo já é, em si, um sistema naturalmente absurdo; por isso, a premissa, aparentemente cômica, logo evolui para uma narrativa cada vez mais fantástica, culminando em acontecimentos grotescos e surrealistas. Quanto mais irracional a narrativa parece, mais ela revela aspectos normalmente invisíveis das relações de exploração do mundo capitalista, e com isso, o surreal torna visível aquilo que o cotidiano naturaliza. Como o próprio diretor costuma afirmar, a ficção científica e o fantástico permitem revelar verdades sociais difíceis de expressar através do realismo convencional. 

Depois de seu trabalho na televisão, com o seriado Sou de Virgem, o diretor retorna ao cinema com sua nova obra I Love Boosters, uma comédia criminal que acompanha um grupo de mulheres marginalizadas, ladras que revendem roupas e acessórios de moda, todos roubados de uma grande rede de lojas, que secretamente, oprime diversos de seus funcionários. Ao decorrer desses pequenos golpes, as meninas se deparam com diversos acontecimentos absurdos, que envolvem dispositivos futuristas, seres sem pele e até mesmo um demônio disfarçado de ser humano. Essa principal característica de Riley é levada quase ao extremo, ao mesmo tempo que não ele se desprende de uma visão de mundo baseada no comunismo marxista.

Diferentemente de diretores como David Lynch ou Luis Buñuel, em cujas obras o surrealismo costuma atender narrativamente ao inconsciente onírico e a uma montagem imagética quase irracional, Riley aplica o absurdo de maneira materialista, com as próprias contradições do capital já funcionando de maneira surreal. Em I Love Boosters, o diretor parece não se prender a nenhum resquício de realidade, nem mesmo quando seus personagens se deparam com diversas (e põe diversas nisso) situações peculiares. Elas não reagem de maneira assustada ou confusa, tratam tudo aquilo com uma naturalidade que até pode gerar um estranhamento naqueles que assistem. Em meio a esses elementos, Riley sempre os relaciona com a narrativa dos trabalhadores oprimidos, da mesma forma que em seu primeiro longa, só que muito mais exagerado desta vez. 

É aí que reside o único problema do filme: o seu excesso. Como já estabelecido antes, as obras de Boots Riley sempre detém essas catarses fantásticas que impulsionam sua visão crítica à sociedade do capital. Porém, em seu último longa, ele parece se perder em certos momentos, ao enfiar tantos elementos desse tipo em uma única produção, tirando grande parte do impacto de diversas revelações cruciais de sua narrativa. Esses detalhes chegam até o final de maneira um pouco bagunçada, e mesmo que eles tornem a experiência divertida por suas aleatoriedades, ainda parece que falta um fio condutor que os conecte, e não pareça apenas uma salada de ideias sem tempero.

Mesmo que a estrutura de I Love Boosters possua certas inconsistências narrativas e imagéticas, Boots Riley ainda se mantém como uma figura deliberadamente importante no cenário hollywoodiano. Digo isso não apenas por sua autoria autêntica, mas também por sua ideologia revolucionária, que concede espaço para uma real causa trabalhadora nas telas do cinema, e não da maneira típica e liberal cultivada nos EUA, mas sim de maneira verdadeiramente marxista.