Geralmente, muitos documentários sobre grandes nomes da música costumam ser avaliados como fontes de conteúdo interessantes de acompanhar sob uma perspectiva mais leiga, por exporem curiosidades até então desconhecidas dos bastidores e se aprofundarem nos artistas para além de sua imagem pública — mesmo que haja bastante divergência entre as narrativas, desde as mais honestas até as mais sensacionalistas e chapa-branca. Um grande exemplo recente de documentário sobre artistas é The Beatles: Get Back (2021), de Peter Jackson, que mostra horas e horas de conteúdo inédito dos Beatles tentando criar um novo projeto enquanto as dinâmicas internas do grupo se definhavam. Muito ali é revelado: grandes clássicos do repertório da banda e das carreiras solo de seus membros sendo criados, tensões surgindo por ego e desinteresse, além de muito da personalidade de cada integrante sendo evidenciado nas filmagens.
Mas e quando o que é mostrado, somado aos relatos dos próprios membros de uma banda, é honesto a ponto de eles serem bastante ácidos uns com os outros? Esse é o caso do Eagles, uma das maiores bandas dos Estados Unidos, dona de um repertório musical sofisticado e de um sucesso duradouro desde os anos 1970. No entanto, quanto mais cresciam, mais eram cercados por dúvidas e tensões e mais passavam a se odiar. Tanto que o documentário abre com o famoso show no Capital Center, em 1977, utilizando essa apresentação como base para falar de certas músicas, por ser o show com algumas das performances mais memoráveis de seus maiores sucessos. Após o fim da apresentação a banda discute, no carro, se eles continuarão fazendo sucesso, e a incerteza sobre o futuro é bastante palpável naquele momento.
Para além do foco no contexto musical que moldou culturalmente Don Henley e Glenn Frey, alguns dos fundadores da banda, e, principalmente, de toda a cena musical dos anos 1970 — especialmente na Costa Oeste dos Estados Unidos —, um fator que acredito ter sido valorizado de maneira adequada foi a importância de Linda Ronstadt para o grupo, já que foi quem ajudou a unir Henley, Frey, Randy Meisner e Bernie Leadon, que formariam a primeira formação do Eagles quando ainda eram músicos de apoio da cantora. A trajetória rumo ao sucesso é retratada como uma aventura para os artistas, já que eles fizeram sucesso logo no álbum de estreia, e tudo o que a fama de um rockstar proporcionava era encarado como diversão. Ainda haviam tensões rondando o grupo, mas eram poucas e bastante veladas. A identidade musical e sua evolução são destacadas ao longo dos álbuns, que, vez ou outra, transitavam entre o country rock e o rock and roll.
Quando chega a vez de falar de Hotel California, o maior sucesso da história da banda, o documentário segue um caminho distinto em relação aos outros clássicos do Eagles. É mostrada toda a música sendo executada durante o show no Capital Center, enquanto os membros vão comentando sobre a canção e os mitos que a cercam, acompanhando o que acontece em cena, seja durante os vocais ou nos solos finais de guitarra — quase como nas edições de filmes com comentários do diretor ao fundo. Esse destaque dado à música funciona como uma barreira que divide o Eagles entre antes e depois de Hotel California. A banda pós Hotel California é um grupo muito mais afetado pelas desavenças, pelas pressões e pelas brigas. Todos os membros são honestos ao relatar as atitudes que tomaram durante esse período de desgaste interno, especialmente Glenn Frey, que não mede palavras para contar como expulsou Randy Meisner da banda por questões de desentendimento e como ele e Don Felder trocaram ameaças pesadas de agressão no palco durante um show em 1980, apresentação que decretou o fim da banda naquele período.
Na segunda parte do documentário, o projeto se divide em mostrar como ambos seguiram com suas carreiras solo e o retorno da banda para a turnê Hell Freezes Over, em 1994. É gratificante ver os compositores tentando restabelecer a química musical depois de tanto tempo e como eles estavam confortáveis em relação a esse retorno. O documentário também mostra como o Eagles não ficou datado e continuava atraindo públicos enormes e emplacando sucessos. Mas as intrigas não ficam para trás, como a injusta demissão de Don Felder da banda por questões financeiras. Mesmo que a narrativa de Glenn dê a entender que Felder era ganancioso, a forma como a história se desenrola dá a entender o contrário, já que Glenn e Don Henley recebiam mais por serem os principais compositores.
As duas partes do documentário são bem detalhadas e diretas no que se propõem, o que permite que cada informação apresentada seja bem aproveitada, sem poupar destaque para as polêmicas — algo que nem os próprios integrantes da banda, em todas as suas formações, evitaram, indo direto ao ponto tanto nos acertos quanto nos erros dessa carreira bem-sucedida.